sábado, 6 de maio de 2017

Sense8 e a Psicanálise

Com o lançamento da segunda temporada da série Sense8 e com a afirmação, por parte da personagem Amanina “Neets”, que Freud havia estudado o fenômeno da telepatia, alguns espectadores da série, especialmente os apaixonados pela Psicologia, Psicanálise e pelo “ocultismo” (como eu) devem ter se perguntado se Freud realmente estudou este fenômeno e qual a opinião dele sobre a telepatia.

De fato, a informação da personagem é verídica. Apesar da postura científica do pai da Psicanálise – que era altamente cauto com relação aos fenômenos extrassensoriais - as aproximações entre a Psicanálise e o ocultismo sempre foram vistas de forma positiva por Freud, que dizia não ser possível rejeitar o estudo dos fenômenos ocultos, especialmente porque a sua disciplina também era vítima dos mesmos ataques e buscava compreendê-los.

Assim, Freud escreveu dois textos diretamente relacionados ao tema da telepatia: o primeiro, datado de 1921, chama-se “Psicanálise e Telepatia” e o segundo, de 1922, chama-se “Sonho e Telepatia”. Outros textos, como “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, também de 1921, também abordam o tema da telepatia, mas de forma secundária.

Mas Freud acreditava em telepatia ou não? A resposta é... sim! Mas um “sim” com muitas ressalvas vale dizer. Isso porque ele percebeu que diversas experiências ditas como telepáticas não raro envolvem o acontecimento de uma morte que se aproxima e isso seria muito fácil se explicar por meio do desejo inconsciente, por parte do “telepata”, de que alguém em especial parta desta para melhor. Ele também afirma que nunca teve contato pessoal e direto com este tipo de fenômeno.

Por outro lado, estes dois textos escritos por Freud trazem histórias intrigantes, como a de uma mulher, frustrada por não conseguir ter filhos graças à impotência do marido que ao se consultar com um “médium” ouviu que teria, até os 32 anos, dois filhos. A mulher, de fato, tinha mais de 40 anos e tal previsão de pronto não estava correta. Freud, entretanto, observou que a mãe desta mulher é que teve, até os 32 anos, dois filhos, e que poderia ter havido uma “transmissão de pensamento” entre o médium e sua frustrada cliente.

Freud surpreende ao apontar que “o sono favorece a telepatia” (p. 207), como acontece com o personagem Will Gorski, que durante o sono consegue acessar lugares e pessoas distantes.

Por fim, Freud afirma que a Psicanálise não pode explicar o fenômeno da telepatia, mas pode fazer com que certos acontecimentos tidos como telepáticos possam ser compreendidos à luz de sua teoria, descaracterizando-os como fenômenos realmente ocultos. Seus colegas Jung e Stecker foram menos cautelosos e mais ousados do que Freud neste assunto: o primeiro anunciava a existência de um “substrato psíquico coletivo” entre todos os seres humanos, também conhecido como “inconsciente coletivo”, enquanto Steckel não apenas acreditava em telepatia como observou-a em seus estudos sobre o sonho.

O fenômeno, ainda assim, continua um mistério, mas conhecendo um pouco mais sobre o que a Psicanálise tem a dizer sobre a telepatia talvez o interesse pela série fique ainda maior e mais intrigante!