domingo, 6 de novembro de 2016

Narcisismo: a quem possa interessar

Há três meses havia me proposto escrever sobre os temas narcisismo e vaidade. A ideia de escrever sobre estes surgiu após perceber, em determinadas pessoas, uma espécie de inebriamento causado pelo aumento do ego da pessoa tomada pelo narcisismo e pela vaidade, por assim dizer.

Funciona da seguinte maneira: uma pessoa, reforçada pelas demais no que tange à sua potência, beleza e capacidade, aparenta ceder a estes reforços positivos e assim ocupar o lugar legitimado por seu meio. Este lugar, todavia, não é um lugar qualquer: é um lugar ocupado apenas por aqueles que desconhecem as fraturas da vida, seus limites e impossibilidades.

Você leitor e leitora conhecem este lugar porque já estiveram nele. Freud, ao descrever o desenvolvimento psíquico, chama o bebê de "majestade". Chama-o assim porque os bebês possuem uma capacidade especial de atrair olhares e afetos de todos a sua volta e, somada à incapacidade do bebê para compreender que existe um mundo além dele, esta faz com que o mesmo seja rei de seu mundo, o criando e o recriando como bem entender.

Esse momento, também caracterizado como narcisismo primário, chega ao fim quando o bebê, ao crescer, descobre que existe um universo para além dele e para o qual ele não tem domínio, levando-o a experimentar a castração, ou seja, a sensação de que nem tudo é de sua alçada. Nada mais do que a depressão o aguarda.

Depressão aqui entendida não algo da ordem da patologia, portanto algo a ser necessariamente evitada. Depressão no sentido de deprimir e se entristecer pela castração percebida, oportunidade para entrar em contato consigo e assim ganhar o passaporte para o mundo real, o mundo onde nem tudo é possível.

Ou parafraseando um trecho da música "type", da banda Living Colour: "everything is possible but nothing is real" - tudo é possível mas nada é real.

Então não fique triste se isso tudo aconteceu com você, pois isso tudo garantiu a você o caminho para a vida adulta e para o mundo real, que não é dominado por você nem por ninguém, muito embora continuamos a lutar para voltar a ter um pouquinho daquele lugar tão gostoso chamado narcisismo primário.

Artistas são chamados de "estrelas" não apenas por serem radiantes: são também inalcançáveis e assim estão acima dos demais. Os que buscam reconhecimento (espelho) por meio de reality shows, até mesmo professores ou professoras. Estas pessoas estão, cada um a sua medida, tentando restituir seu lugar de majestade em seu próprio mundo.

Será por isso que os blogs estão perdendo lugar para o Youtube? Se a palavra é a morte da coisa, como diziam Freud e Foucault, que palavra poderá competir com a imagem? Terei que trocar minhas palavras pela minha imagem para continuar mantendo o Espaço Potencial? Espero que não!

O problema, ao meu ver, ocorre quando elas se convencem da reconquista deste lugar, "se acharam" porque estavam procurando o lugar da não castração, da totalidade, do coletivo, do grupal. Perceba você mesmo o sentimento superpotente daqueles que experimentam a sensação de pertencer a um coletivo ou uma massa.

Esse momento é aquele que chamei de inebriante. Fatalmente, todo êxtase tem a depressão como destino. Que bom. Não há relação ou sociedade possível quando o narcisismo impera.

Mas o narcisismo, para quem já quebrou a cara, sempre quer voltar.
Sem problemas, desde que ele venha a passeio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário