sábado, 26 de novembro de 2016

Jardim

Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. 

Tive que esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora.

Sozinhos eles nada podem fazer. São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, a espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim, eram posse minha.

Um dia o inesperado aconteceu: o meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isso que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isso é o Guimarães Rosa: "são muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados". É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu.

Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constroem com as plantas no espaço exterior. Mas não era bem isso que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. 

Em busca do tempo perdido.

Rubem Alves (1933 - 2014).

Uma homenagem à Jaqueline Magalhães (in memoriam).

domingo, 6 de novembro de 2016

Narcisismo: a quem possa interessar

Há três meses havia me proposto escrever sobre os temas narcisismo e vaidade. A ideia de escrever sobre estes surgiu após perceber, em determinadas pessoas, uma espécie de inebriamento causado pelo aumento do ego da pessoa tomada pelo narcisismo e pela vaidade, por assim dizer.

Funciona da seguinte maneira: uma pessoa, reforçada pelas demais no que tange à sua potência, beleza e capacidade, aparenta ceder a estes reforços positivos e assim ocupar o lugar legitimado por seu meio. Este lugar, todavia, não é um lugar qualquer: é um lugar ocupado apenas por aqueles que desconhecem as fraturas da vida, seus limites e impossibilidades.

Você leitor e leitora conhecem este lugar porque já estiveram nele. Freud, ao descrever o desenvolvimento psíquico, chama o bebê de "majestade". Chama-o assim porque os bebês possuem uma capacidade especial de atrair olhares e afetos de todos a sua volta e, somada à incapacidade do bebê para compreender que existe um mundo além dele, esta faz com que o mesmo seja rei de seu mundo, o criando e o recriando como bem entender.

Esse momento, também caracterizado como narcisismo primário, chega ao fim quando o bebê, ao crescer, descobre que existe um universo para além dele e para o qual ele não tem domínio, levando-o a experimentar a castração, ou seja, a sensação de que nem tudo é de sua alçada. Nada mais do que a depressão o aguarda.

Depressão aqui entendida não algo da ordem da patologia, portanto algo a ser necessariamente evitada. Depressão no sentido de deprimir e se entristecer pela castração percebida, oportunidade para entrar em contato consigo e assim ganhar o passaporte para o mundo real, o mundo onde nem tudo é possível.

Ou parafraseando um trecho da música "type", da banda Living Colour: "everything is possible but nothing is real" - tudo é possível mas nada é real.

Então não fique triste se isso tudo aconteceu com você, pois isso tudo garantiu a você o caminho para a vida adulta e para o mundo real, que não é dominado por você nem por ninguém, muito embora continuamos a lutar para voltar a ter um pouquinho daquele lugar tão gostoso chamado narcisismo primário.

Artistas são chamados de "estrelas" não apenas por serem radiantes: são também inalcançáveis e assim estão acima dos demais. Os que buscam reconhecimento (espelho) por meio de reality shows, até mesmo professores ou professoras. Estas pessoas estão, cada um a sua medida, tentando restituir seu lugar de majestade em seu próprio mundo.

Será por isso que os blogs estão perdendo lugar para o Youtube? Se a palavra é a morte da coisa, como diziam Freud e Foucault, que palavra poderá competir com a imagem? Terei que trocar minhas palavras pela minha imagem para continuar mantendo o Espaço Potencial? Espero que não!

O problema, ao meu ver, ocorre quando elas se convencem da reconquista deste lugar, "se acharam" porque estavam procurando o lugar da não castração, da totalidade, do coletivo, do grupal. Perceba você mesmo o sentimento superpotente daqueles que experimentam a sensação de pertencer a um coletivo ou uma massa.

Esse momento é aquele que chamei de inebriante. Fatalmente, todo êxtase tem a depressão como destino. Que bom. Não há relação ou sociedade possível quando o narcisismo impera.

Mas o narcisismo, para quem já quebrou a cara, sempre quer voltar.
Sem problemas, desde que ele venha a passeio.