domingo, 29 de maio de 2016

Carta para quem ama demais

Caro(a) leitor(a)

Talvez você esteja revisitando um momento já conhecido, e ele o trouxe até este texto: a conclusão de que você "ama demais". 

Possivelmente você deve ter chegado à esta conclusão após perceber os resultados um tanto desprazerosos e sofridos de seus últimos relacionamentos, como por exemplo, a falta de reconhecimento e de sensibilidade por parte de seu(sua) parceiro(a), a sensação de que construiu tudo sozinho(a) e teria se casado com a solidão, ou com um(a) desconhecido(a) que agora mostrou sua verdadeira face.

Eu sei (e não preciso ser psicanalista - ou mesmo seu amigo - para saber) que você fez de tudo para que desse certo. De tudo mesmo. Você lutou até o fim, deixando escoar sob você toda a disposição que lhe restara. Você jurou publicamente devoção a pessoa amada, flexibilizou seus limites até o intolerável, submetendo-se a situações que você jamais imaginou, tudo isso para livrar seu relacionamento dos inúmeros desrespeitos que o levam a seu sepultamento.

Não nos unimos para nos separar, nisso todo mundo concorda. Investimos tudo o que podemos na pessoa amada para que o amor se sobressaia mesmo após tantos abalos e intercorrências que o colocam em risco. 

E então, no final das contas, você pode chegar a conclusão que ama, ou amou demais.

Particularmente eu não acredito em amor "forte", ou amor "resistente", mas acredito em pessoas "fortes" e pessoas "resistentes". O amor, ao meu ver, é permanentemente frágil, como uma planta, ou mesmo uma flor, pois como elas, sua sobrevivência exige delicadeza e atenção. Como já afirmei em um texto anterior, o amor antecede o nosso eu, porque recebemos os cuidados de alguém quando não havíamos nos estruturado como pessoa. Por este motivo, o amor é como um estrangeiro dentro de nós, daí a dificuldade que temos para compreendê-lo.

O amor nos lembra o quão somos precários, talvez por isso alguns preferem não se entregar a ele.

E diante desta precariedade trazida por este sentimento, o término do amor, combinado a sensação que amamos demais podem escamotear uma possibilidade pouco conhecida e assombrosa: pode ser que fizemos exatamente o contrário: amamos "de menos".

Pense comigo: quantas vezes você, ao flexibilizar seus limites, como afirmei acima, acabou por se violentar, passando por cima de você mesma(o)? Quantas vezes você colocou o outro como prioridade em detrimento aos seus valores e desejos? Quantas vezes o seu "sim" mascarou um "não" temeroso pela não aceitação e consequente solidão?

Se você respondeu afirmativamente à alguma destas questões, eu lhe faço uma outra, igualmente importante: depois de tudo isso, quem é você hoje?

Como você sabe, sou psicanalista e trabalho com vítimas de violência há mais de treze anos. Posso afirmar, com convicção, que este tipo de acontecimento germina, gradativamente, o desenvolvimento de uma violência doméstica, seja contra a mulher, o homem, crianças e adolescentes.

Toda violência doméstica já foi, no passado, uma violência intrapessoal, que confundiu amor com servidão e dependência, levando-o às últimas consequências.

Espero que esta carta possa ajudá-la(o) a compreender melhor este sentimento, que você atravesse este momento da melhor maneira possível sabendo, sem nunca se esquecer, que você é mais importante do que qualquer amor que você já depositou em alguém.

Torço para que você deposite este amor em você. O outro vem sempre depois.

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