sábado, 6 de fevereiro de 2016

Árvore

Sou do tipo que se isola para se comunicar. Tem gente que faz o contrário.

Isolar-se para se comunicar só tem sentido quando se sabe que existe um lugar, dentro de cada um de nós, no qual podemos regressar quando há muito barulho dentro (e fora) da gente.

Não há remédio melhor para combater o barulho do que o silêncio que provém do isolamento. Buda concordaria comigo, até porque dizem que ele permaneceu tanto tempo em isolamento que se tornou uma árvore, com raízes fincadas no chão, se comunicando com o mundo por meio de suas folhas. Fez isso quando percebeu que o reino onde vivia não correspondia aos seus valores mais íntimos.

Dependendo do mundo em que vivemos, ser uma árvore é um tremendo privilégio.

Ou uma tremenda poesia, como a que transcrevo abaixo:

Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho
No estágio de ser esta árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhe ensinavam no internato
Aprendeu com a grandeza o perfume de Deus
Seu olho, no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve para poesia.
No estágio de ser árvore meu  irmão descobriu que as árvores são vaidosas
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara
Envaidecia-se quando era nomeada para entardecer os pássaros
E tinha ciúme da brancura que os lírios deixavam nos brejos
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
Porque fez amizade com muitas borboletas.

(Manoel de Barros, Ensaios Fotográficos, 2000).