terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"O que a gente faz quando perde alguém"?*

A tragédia ocorrida no último dia 28 de novembro com o voo da Chapecoense convida-nos para uma reflexão importante: como lidar com a perda de um ente querido? Como conseguir superar o vazio deixado por aquela pessoa que tanto nos preencheu ao longo de nossas vidas?

Costumamos escutar desde cedo que a única certeza que temos na vida é que um dia ela termina. O problema é que por mais que tentemos não conseguimos nos preparar para encarar esta certeza, nem em nós nem mesmo nos outros. Neste sentido, saber sobre a inexorabilidade de nosso destino nada pode nos acrescentar ou aliviar.

A perda de um ente querido é dolorosa, traz sentimentos de vazio, de culpa e de impotência. A dor é sentida no corpo e por mais que tentemos, não conseguimos explicar como ela nos atinge. A perda de um grupo de pessoas em um mesmo acidente, como foi o ocorrido, aproxima a morte com características que não estamos acostumados, como por exemplo a vitalidade do esporte e a jovialidade dos jogadores, lutando pela conquista de um campeonato de futebol.

A luta deu lugar ao luto, e ele é doloroso porque existe amor. Na vida podemos sim encontrar outras certezas e uma delas é que não existe luto quando não existe amor pela pessoa que se foi. O vazio que sentimos tem relação não apenas com o carinho que não vamos mais poder oferecer à pessoa, mas também porque não vamos mais receber o carinho daquela pessoa que nos deixou. Perder alguém significa também deixar de ser amado.

Isso não significa que deixaremos de amá-los. Pelo contrário, podemos continuar demonstrando nossa consideração pela pessoa que se foi, homenageando-a como fizeram os colombianos ao se despedirem dos jogadores e das demais vítimas da tragédia.

Prestamos homenagens quando, apesar da dor e das características trágicas da perda, conseguimos dar um lugar, mesmo que pequeno e passageiro, às lembranças positivas que a pessoa querida nos deixou: seu sorriso, seu olhar, seus ensinamentos. Lembrar das vezes que o ente querido nos fez rir, não nos deixou sozinhos, cuidou e compartilhou sua vida conosco, tornando a nossa vida ainda mais singular.

Aos poucos percebemos que por mais dolorosa que seja, nenhuma perda é absoluta. A dor não tem prazo para nos deixar porque depende da qualidade do vínculo e da forma com quem cada um vai lidar com a ausência da pessoa. Acolher o próprio sofrimento e não exigir rapidez na superação do luto podem contribuir neste momento.


Além disso, coletivizar a perda com outras pessoas que também enfrentam este doloroso percurso também pode ser uma alternativa. Juntos, o vazio dá lugar à reconstrução coletiva das lembranças positivas que podem resignificar a perda, transformando a partida em memória de orgulho e heroísmo. 

* Pergunta feita por um menino de sete anos que perdeu o irmão vítima de homicídio.

sábado, 26 de novembro de 2016

Jardim

Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. 

Tive que esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora.

Sozinhos eles nada podem fazer. São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, a espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim, eram posse minha.

Um dia o inesperado aconteceu: o meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isso que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isso é o Guimarães Rosa: "são muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados". É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu.

Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constroem com as plantas no espaço exterior. Mas não era bem isso que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. 

Em busca do tempo perdido.

Rubem Alves (1933 - 2014).

Uma homenagem à Jaqueline Magalhães (in memoriam).

domingo, 6 de novembro de 2016

Narcisismo: a quem possa interessar

Há três meses havia me proposto escrever sobre os temas narcisismo e vaidade. A ideia de escrever sobre estes surgiu após perceber, em determinadas pessoas, uma espécie de inebriamento causado pelo aumento do ego da pessoa tomada pelo narcisismo e pela vaidade, por assim dizer.

Funciona da seguinte maneira: uma pessoa, reforçada pelas demais no que tange à sua potência, beleza e capacidade, aparenta ceder a estes reforços positivos e assim ocupar o lugar legitimado por seu meio. Este lugar, todavia, não é um lugar qualquer: é um lugar ocupado apenas por aqueles que desconhecem as fraturas da vida, seus limites e impossibilidades.

Você leitor e leitora conhecem este lugar porque já estiveram nele. Freud, ao descrever o desenvolvimento psíquico, chama o bebê de "majestade". Chama-o assim porque os bebês possuem uma capacidade especial de atrair olhares e afetos de todos a sua volta e, somada à incapacidade do bebê para compreender que existe um mundo além dele, esta faz com que o mesmo seja rei de seu mundo, o criando e o recriando como bem entender.

Esse momento, também caracterizado como narcisismo primário, chega ao fim quando o bebê, ao crescer, descobre que existe um universo para além dele e para o qual ele não tem domínio, levando-o a experimentar a castração, ou seja, a sensação de que nem tudo é de sua alçada. Nada mais do que a depressão o aguarda.

Depressão aqui entendida não algo da ordem da patologia, portanto algo a ser necessariamente evitada. Depressão no sentido de deprimir e se entristecer pela castração percebida, oportunidade para entrar em contato consigo e assim ganhar o passaporte para o mundo real, o mundo onde nem tudo é possível.

Ou parafraseando um trecho da música "type", da banda Living Colour: "everything is possible but nothing is real" - tudo é possível mas nada é real.

Então não fique triste se isso tudo aconteceu com você, pois isso tudo garantiu a você o caminho para a vida adulta e para o mundo real, que não é dominado por você nem por ninguém, muito embora continuamos a lutar para voltar a ter um pouquinho daquele lugar tão gostoso chamado narcisismo primário.

Artistas são chamados de "estrelas" não apenas por serem radiantes: são também inalcançáveis e assim estão acima dos demais. Os que buscam reconhecimento (espelho) por meio de reality shows, até mesmo professores ou professoras. Estas pessoas estão, cada um a sua medida, tentando restituir seu lugar de majestade em seu próprio mundo.

Será por isso que os blogs estão perdendo lugar para o Youtube? Se a palavra é a morte da coisa, como diziam Freud e Foucault, que palavra poderá competir com a imagem? Terei que trocar minhas palavras pela minha imagem para continuar mantendo o Espaço Potencial? Espero que não!

O problema, ao meu ver, ocorre quando elas se convencem da reconquista deste lugar, "se acharam" porque estavam procurando o lugar da não castração, da totalidade, do coletivo, do grupal. Perceba você mesmo o sentimento superpotente daqueles que experimentam a sensação de pertencer a um coletivo ou uma massa.

Esse momento é aquele que chamei de inebriante. Fatalmente, todo êxtase tem a depressão como destino. Que bom. Não há relação ou sociedade possível quando o narcisismo impera.

Mas o narcisismo, para quem já quebrou a cara, sempre quer voltar.
Sem problemas, desde que ele venha a passeio.

sábado, 20 de agosto de 2016

Narcisismo e vaidade. Características tão humanas quanto o amor e o ódio, serão os temas do próximo texto do Espaço Potencial.

domingo, 10 de julho de 2016

E se...

E se você não tivesse ninguém?
Não tivesse pai nem mãe para culpar suas neuroses.
Não tivesse marido e mulher para depositar suas frustrações.
Não tivesse amigos e amigas para atribuir a eles(as) sua insensatez.

E mais ainda, e se você não tivesse o álcool para esquecer do peso de suas escolhas? Nem as demais drogas para lembrar que o mundo e você são a mesma coisa.

E se você não tivesse Deus para agradecer por suas conquistas e felicidades.
E não tivesse o Diabo para depositar suas maldades.

Você estaria sozinho (e curado).

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Homenagem

Desde sua inauguração, o Espaço Potencial nunca contou com uma foto. Todas as crônicas escritas neste espaço privilegiam a palavra, via de expressão de poesias, alegrias, ansiedades e tristezas. Palavras que buscam aliviar sofrimentos, ou pelo menos auxiliar na reflexão a respeito de um mundo tão confuso e incoerente, mundo este que mais uma vez sofre com a intolerância e o extremismo.

Hoje, portanto, o Espaço Potencial utiliza esta foto para homenagear as 49 pessoas mortas no atentado à Boate Pulse, em Orlando, bem como homenagear também todos e todas as pessoas que ,mesmo sofrendo as mais diversas pressões e negações cotidianas, não desistem de serem quem são, nem de viverem como acreditam que devam viver. 


domingo, 29 de maio de 2016

Carta para quem ama demais

Caro(a) leitor(a)

Talvez você esteja revisitando um momento já conhecido, e ele o trouxe até este texto: a conclusão de que você "ama demais". 

Possivelmente você deve ter chegado à esta conclusão após perceber os resultados um tanto desprazerosos e sofridos de seus últimos relacionamentos, como por exemplo, a falta de reconhecimento e de sensibilidade por parte de seu(sua) parceiro(a), a sensação de que construiu tudo sozinho(a) e teria se casado com a solidão, ou com um(a) desconhecido(a) que agora mostrou sua verdadeira face.

Eu sei (e não preciso ser psicanalista - ou mesmo seu amigo - para saber) que você fez de tudo para que desse certo. De tudo mesmo. Você lutou até o fim, deixando escoar sob você toda a disposição que lhe restara. Você jurou publicamente devoção a pessoa amada, flexibilizou seus limites até o intolerável, submetendo-se a situações que você jamais imaginou, tudo isso para livrar seu relacionamento dos inúmeros desrespeitos que o levam a seu sepultamento.

Não nos unimos para nos separar, nisso todo mundo concorda. Investimos tudo o que podemos na pessoa amada para que o amor se sobressaia mesmo após tantos abalos e intercorrências que o colocam em risco. 

E então, no final das contas, você pode chegar a conclusão que ama, ou amou demais.

Particularmente eu não acredito em amor "forte", ou amor "resistente", mas acredito em pessoas "fortes" e pessoas "resistentes". O amor, ao meu ver, é permanentemente frágil, como uma planta, ou mesmo uma flor, pois como elas, sua sobrevivência exige delicadeza e atenção. Como já afirmei em um texto anterior, o amor antecede o nosso eu, porque recebemos os cuidados de alguém quando não havíamos nos estruturado como pessoa. Por este motivo, o amor é como um estrangeiro dentro de nós, daí a dificuldade que temos para compreendê-lo.

O amor nos lembra o quão somos precários, talvez por isso alguns preferem não se entregar a ele.

E diante desta precariedade trazida por este sentimento, o término do amor, combinado a sensação que amamos demais podem escamotear uma possibilidade pouco conhecida e assombrosa: pode ser que fizemos exatamente o contrário: amamos "de menos".

Pense comigo: quantas vezes você, ao flexibilizar seus limites, como afirmei acima, acabou por se violentar, passando por cima de você mesma(o)? Quantas vezes você colocou o outro como prioridade em detrimento aos seus valores e desejos? Quantas vezes o seu "sim" mascarou um "não" temeroso pela não aceitação e consequente solidão?

Se você respondeu afirmativamente à alguma destas questões, eu lhe faço uma outra, igualmente importante: depois de tudo isso, quem é você hoje?

Como você sabe, sou psicanalista e trabalho com vítimas de violência há mais de treze anos. Posso afirmar, com convicção, que este tipo de acontecimento germina, gradativamente, o desenvolvimento de uma violência doméstica, seja contra a mulher, o homem, crianças e adolescentes.

Toda violência doméstica já foi, no passado, uma violência intrapessoal, que confundiu amor com servidão e dependência, levando-o às últimas consequências.

Espero que esta carta possa ajudá-la(o) a compreender melhor este sentimento, que você atravesse este momento da melhor maneira possível sabendo, sem nunca se esquecer, que você é mais importante do que qualquer amor que você já depositou em alguém.

Torço para que você deposite este amor em você. O outro vem sempre depois.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Por que amamos demais?

No meu próximo texto, escreverei sobre o desprazer do amor.

(parece até título de novela mexicana...)

domingo, 20 de março de 2016

Odeie seu ódio?

"Odeie seu ódio"

Você já deve ter lido estra frase em alguma parede de sua cidade. Caso não tenho se deparado com ela, já deve ter escutado algum conhecido reprovar seu próprio ódio, ou do próximo. Eu mesmo escutei, na semana passada, por meio de uma amiga, que o ódio é um sentimento terrível, responsável pelas mais brutais violências e pelas maiores desgraças nas relações interpessoais, e que, por isso, deveria ser mantido sob permanente vigilância.

De certa forma, esta informação não deixa de ser verdade, especialmente no atual momento de crise política na qual nos encontramos, onde não raro a intolerância e o preconceito prevalecem. 

Além deste, outros exemplos poderiam ser descritos, mas penso ser desnecessário, uma vez que todos eles teriam, como produto final, a destruição, de si mesmo ou do outro.

Como devem saber, trabalho na temática da violência há mais de uma década. Escuto, diariamente, relatos de sofrimento e de vazio conjugados à revolta e ao desejo de vingança, proferidos por vítimas que desejam, imperiosamente, ocupar o lugar de sujeito, de ativo, de autor da violência: uma forma de deixar de sofrer.

Lembro-me de uma mulher, cujo filho de vinte e poucos anos fora assassinado a facadas na véspera de Natal, descrever com detalhes a maneira pela qual gostaria que o autor do homicídio contra seu filho seria assassinado por ela: a facadas, cortado pedaço por pedaço, talvez até se parecer com a vítima, a mulher, que também se encontrava em pedaços após aquela perda única e eterna.

Se você leitor se assustou com o parágrafo acima, fique tranquilo. Quanto mais podemos falar sobre nosso ódio, mais difícil será, para nós, atuá-lo. Minha função principal, como psicanalista, foi de suportar aquele relato de ódio, sobreviver a ele, deixá-la falar todos os detalhes até que pudesse ir embora, para voltar na semana seguinte. Aos poucos, aquela mulher deixou de descrever seu desejo de vingança, aos poucos sendo transformado em desejo de justiça, passando do lugar de vítima para o lugar de sobrevivente, onde eu também me encontrava.

É nesse sentido que poderia dizer, propositalmente de forma ambígua, que trabalho COM violência, e você, leitor ou leitora, não precisa ser psicanalista, nem trabalhar com o que eu trabalho para viver tudo isso. Da minha parte, os relatos de uma clínica do excessivo exigem de mim uma escuta e uma disponibilidade violenta para com o outro, da mesma maneira que uma cesária exige do médico considerável violência para sua realização. E aí também está o ódio, a favor da construção e da vida.

Por isso, antes de odiar seu ódio, procure olhar um pouco mas atentamente à sua volta. Você o encontrará nos lugares mais inesperados: nas mãos de uma excelente cozinheira,  no suspiro profundo de um atleta, no padedê de uma bailarina. 

Também sob a ponta de meus dedos, sem o qual nada teria sido escrito agora.

domingo, 13 de março de 2016

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Árvore

Sou do tipo que se isola para se comunicar. Tem gente que faz o contrário.

Isolar-se para se comunicar só tem sentido quando se sabe que existe um lugar, dentro de cada um de nós, no qual podemos regressar quando há muito barulho dentro (e fora) da gente.

Não há remédio melhor para combater o barulho do que o silêncio que provém do isolamento. Buda concordaria comigo, até porque dizem que ele permaneceu tanto tempo em isolamento que se tornou uma árvore, com raízes fincadas no chão, se comunicando com o mundo por meio de suas folhas. Fez isso quando percebeu que o reino onde vivia não correspondia aos seus valores mais íntimos.

Dependendo do mundo em que vivemos, ser uma árvore é um tremendo privilégio.

Ou uma tremenda poesia, como a que transcrevo abaixo:

Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho
No estágio de ser esta árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhe ensinavam no internato
Aprendeu com a grandeza o perfume de Deus
Seu olho, no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve para poesia.
No estágio de ser árvore meu  irmão descobriu que as árvores são vaidosas
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara
Envaidecia-se quando era nomeada para entardecer os pássaros
E tinha ciúme da brancura que os lírios deixavam nos brejos
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
Porque fez amizade com muitas borboletas.

(Manoel de Barros, Ensaios Fotográficos, 2000).