sábado, 1 de agosto de 2015

O Dia em que o Sol Não Nasceu

Acredita-se que um dia, o Sol fez um acordo com a Lua. Disse para ela que depois de milhões de anos a brilhar, entristeceu-se. Percebeu que sua luz não apenas iluminava, mas também era capaz de cegar. Seu calor, que por tanto tempo aqueceu os mares, as plantas e a pele das pessoas mais insensíveis, era capaz de queimar e tudo aquilo que ele chamava de amor, poderia ter outro nome.

Deprimido, o Sol não nasceu mais, e pediu para que a Lua o representasse. Disse para ela que sua luz sem calor, mesmo não lhe sendo própria, poderia iluminar sem queimar. As pessoas, apesar de não poderem mais sentir o calor sob suas peles, poderiam ser aquecidas pela palidez de seu brilho, enquanto todos os demais seres deste planeta, e o que mais tiver nos demais, seguiriam guiados pelo seu ciclo frio, previsível e regular.

A Lua bem que tentou animá-lo. Disse para o Sol que a vida, mesmo quando se depara com a morte, era capaz de sorrir. Disse também que o amor, pasmem, tinha um passado condenado pelo ódio, e que morria de vergonha de contar para seus amigos este segredo tão bem guardado.

E o que dizer da violência? Aquele mal destruidor, capaz de exterminar as mais doces convivências, combatido pelo Sol por tantos e tantos anos, era justamente a mesma violência que o levantada nas manhãs mais frias e o presenteava com a agressividade de viver e aquecer boa parte de um sistema planetário inteiro à sua volta.

Os seres vivos da Terra, tanto a dizer sobre eles!

Um canavial inteiro é capaz de se dobrar sob o vento mais impiedoso e retornar sem perder sua imponência. Uma ostra é capaz de fazer de uma invasão, uma pérola.

Mas nada adiantou. Naquele dia, o Sol entrou em depressão e deixou de acordar. Sua existência se tornara uma ficção. Havia-se descoberto não tão grande, nem tão quente, nem tão necessário.

Por anos e anos os dias de noite perduraram, a Lua deixou de dormir e o tempo quis trocar de nome, dizendo que, a partir dali, queria se chamar "instante", eternamente.

A Lua se abateu, mas continuou a brilhar à sua maneira, sob a certeza de que a depressão era como um remédio amargo, que faria com que o Sol um dia iluminasse as ambivalências do mundo. 

Faria com que o Sol descobrisse que seu mundo não é o mesmo mundo que ele tanto aquece. 
Faria com que o Sol se descobrisse uma parte, e não o todo no universo. 
Faria o Sol descobrir a ética. 

E disse para si mesma:
Um dia, ele nascerá.

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