domingo, 17 de maio de 2015

O Menino que Carregava Água na Peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira

A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento
e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso

O menino era ligado em despropósitos
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio
Falava que os vazios são maiores e até infinitos

Com o tempo, aquele menino que era cismado e esquisito
descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira

No escrever o menino viu que era capaz de ser
Noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo
O menino aprendeu a usar as palavras
Viu que podia fazer peraltagem com as palavras
E começou a fazer peraltagens

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro colocando um ponto final na frase
Foi capaz de modificar uma tarde botando uma chuva nela
O menino fazia prodígios
Até fez uma pedra dar flor

A mãe reparava o menino com ternura
A mãe falou: meu filho, você vai ser poeta
Vai carregar água na peneira a vida toda
Você vai encher os vazios com suas peraltagens
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos

Manoel de Barros

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