quarta-feira, 18 de março de 2015

O coração cuja batida fora nosso primeiro relógio,
Os braços cujas extensões nos uniram em um só,
O peito que aqueceu e alimentou sem impor presença,
Integra o corpo, o eu e o nós.

Do berço à cama, do ato ao verbo.
O próximo texto do Espaço Potencial falará sobre o corpo,
Corpo em palavras, aos olhos que não costumam ler.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Velar, Revelar... e Eternizar

"Quanto mais se vela, mais se revela".

O psicanalista deveria saber... e sabia. A questão é que o saber não basta quando o terreno é inconsciente. No escuro do ser, a sabedoria não ilumina muita coisa.

Ele (o psicanalista) aprende desde cedo a ler não apenas o que os outros querem escrever, mas também o que os outros não querem, e a ouvir aquilo que os outros querem dizer, mas especialmente o seu contrário. Seu trabalho se traduz em encontrar os tijolos, as vigas, as sustentações, os rastros primitivos daquela construção, para que suas paredes possam ser novamente aprumadas.

Ocorreu-lhe, entretanto, que  por um momento ele poderia se dar o direito de não saber. Afinal, sua vida não é permeada exclusivamente de demandas terapêuticas e o mundo é grande demais para ocupar apenas um lugar. Um descanso à sombra da ignorância, ventilado por frivolidades, às vezes pode ser tão revigorante quanto uma viagem aos diversos paraísos desta terra.

Mas "quanto mais se vela, mais se revela". A coisas que nos cercam nos mostram justamente aquilo que querem esconder: um diário secreto anseia, secretamente, a publicação, da mesma maneira que o véu da noiva denuncia seu desejo de revelar-se. 

É pelo véu que se descobre a noiva, é na noite que a flor revela seu cheiro. A natureza é trágica, inescapável.

Mas o psicanalista está habituado com o que é excessivo, com aquilo que transborda. Sua potência reside, justamente, no reconhecimento de sua limitação e, por isso, ele decidiu fazer um acordo com a natureza: em troca da revelação não desejada e desimpedida, ele lhe daria o testemunho, a marca. Ele lhe daria a memória, o registro, ele iria conferir à revelação, o seu devido peso. 

Ele lhe presentearia com a eternidade. Assim como todas as demais que, tragicamente, lhe visitarão.

Seu texto escondido tornou-se aquele que ele mais queria que fosse revelado, para nunca mais ser esquecido.