domingo, 11 de janeiro de 2015

Sem medo da dependência

Certa vez li um texto do pediatra e psicanalista inglês Donald Wooods Winncott (1896 - 1971) no qual ele abordava a importância da mãe para a sociedade. Dentre muitas informações, uma me chamou a atenção em especial: o medo da dependência, mais especificamente com relação ao gênero masculino.

No cotidiano clínico de um psicanalista, o atendimento de homens, além de ser muito mais raro em comparação ao atendimento de mulheres, é permeado de questões singulares, sendo uma delas o medo que os homens tem de se tornarem inválidos, impotentes, acamados. Medo de médico, de serem operados, enfim, medo de dependerem dos cuidados de alguém.

Winnicott é direto ao afirmar o seguinte: a importância da mãe para a sociedade é fundamental e todo aquele que age com preconceito e discriminação às potencialidades da mulher na sociedade, sabe melhor que ninguém o deleite de ter sido dependende de uma. É como se Winnicott dissesse o seguinte: o cidadão com características machistas (também incluo mulheres) sabe melhor que ninguém a importância que uma mulher tem para si e para a sociedade, porque já dependeu de uma quando bebê, e regozijou-se com isso.

Na sociedade do patriarcado em que vivemos, fruto da revolução industrial que obrigava o "mais forte" a construir e o "mais fraco" à cuidar da casa, repetimos cuidados diferenciados com relação aos homens e mulheres. Quando criamos meninos com carrinhos e meninas com bonecas, não estamos apenas inculcando lugares sociais, estamos também levando os meninos a experimentarem logo cedo a autonomia (de mão única) e as meninas a dependência.

Quando uma menina precisa de colo, os pais tendem, com maior facilidade, a outorgá-la o carinho e a escuta necessárias, pois nesta sociedade, seus sentimentos e sua sexualidade conectam-se mais diretamente com o futuro da família e a repetição de seus valores.

Os meninos, por sua vez, aparentam não ter a mesma oportunidade. São educados a não apenas evitar chorar, mas também a seguirem um percurso rumo a autonomia e a independência, sem chance de retornar quando a vida apresenta sua face mais bruta. A paixão deles por super-heróis é um exemplo disto. Um super-herói não é o que é apenas por conta de sua força, mas porque ele possui aquilo que ninguém tem: a Verdade, que liberta, especialmente de toda e qualquer dependência.

É quase infindável a quantidade de pessoas que conheço, cujos sentimentos de tristeza e derrota apresentam-se enclausurados sob a face maníaca da defesa psíquica, que recusa toda e qualquer forma de auxílio, por não terem encontrado um colo que o acolhesse no momento em que mais precisaram. Particularmente, tenho dificuldade de me relacionar com pessoas que temem a tristeza, pois além de não serem capazes de ser honestas consigo, apresentam comportamentos e afetos estereotipados, distantes da realidade.

Temos, como amigos, amigas, professores, pais, que compreender que o desenvolvimento humano deve ser reconhecido como um espiral que comporta e necessita de retornos à dependência para poder voltar ao rumo da independência (me faz lembrar um carro de corrida que, por mais veloz e avançado que seja, precisa parar para ser reabastecido e trocar os pneus e, as vezes, parar para voltar a correr na próxima temporada).

Em outras palavras, devemos reconhecer o retorno a dependência como um momento, parte do amadurecimento, para que possamos deixar de temê-la, dentro e fora dos consultórios.

É por meio deste caminho que podemos contar uns com os outros.
E é por meio dele também que conto com vocês.

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