sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sushiman

No Japão, existe um tipo de peixe bastante apreciado, especialmente pelo seu paladar e pela sua raridade. De tão raro, este peixe é servido e degustado apenas em locais especializados e autorizados pela lei sanitária do país. O motivo se deve ao fato de que, apesar de saboroso e raro, este peixe possui em seu fígado um componente químico altamente letal aos seres humanos, o qual, se ingerido, pode causar falência respiratória e paralisia.

O consumo inapropriado e incauto deste peixe já teria causado a morte de mais de cem pessoas e, por isso, sua degustação é cercada de cuidados: somente um sushiman altamente especializado é capaz de cortar o animal com a precisão necessária para extrair o melhor de sua carne sem contaminá-la com suas entranhas mortais. Para se ter uma ideia, ao final da preparação, os restos do peixe são colocados em um compartimento próprio, para posteriormente serem dispensados por coletores especializados, em local especializado.

Quanta especialização para tamanho cuidado! Não seria, então, mais fácil, não comer tal peixe? Afinal, não precisa ser biólogo para se ter a noção da variedade de espécies marítimas que temos a nossa disposição, com igual ou superior sabor.

A resposta é sim, porém, os objetos que fazem parte de nossas vidas também vivem a nadar em nossos mares inconscientes, alimentando-se de verdadeiros recifes de valores e sentidos, escapando-nos ao controle, nas ondas de nossas impulsividades. Assim, alimentar-se de um peixe potencialmente mortal pode representar também sentir o gosto da vitória de nossa potência contra a morte que nos espreita todos os dias, testar os limites de nosso sadismo e nosso masoquismo ao tempero da adrenalina presente a cada mordida.

Ou então, para alguns, o peixe é bom (ponto).

Tais interpretações se aplicam para aqueles que o procuram, e não poderia deixar de lado a consideração por aqueles que, apesar de não procurarem se alimentar do peixe, acabam tendo que encará-lo. Sabemos, pois, que a vida não pode ser medida pela lógica da Física, da causa e efeito, da "gentileza que gera gentileza". Quando nosso percurso é atravessado pelo outro, pelo diferente (que, vale dizer, nos é inconscientemente familiar), podemos ser surpreendidos com efeitos diferentes e até mesmo contrários. Nossas ações, por mais nobres que sejam, não são capazes de garantir nosso amanhã.

Nas relações humanas, no Japão ou em qualquer lugar do mundo, as possibilidades tem dimensões oceânicas, e nelas as chances de nos encontrarmos com pessoas altamente destrutivas são inescapáveis. Envenenadas pela perversidade, estas pessoas exigem de nós o respeito pela sua condição monstruosamente humana, bem como a precisão de nossas intervenções, na busca de segurança e na esperança de continuar a viver sem amargar demais.

Uma tarefa difícil de se fazer, mas que, quando preparada adequadamente, pode ser bastante saborosa.