quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Nós em gota d´água

Nós, humanos, somos especialistas em atribuir ao outro determinadas responsabilidades e acontecimentos que também são de nossa alçada, sobretudo aqueles que nos ameaçam ou não nos agradam. Em período eleitoral então, esta natureza é exacerbada, em função de ideologias partidárias que servem para apoiar ou não determinados candidatos.

Um exemplo é o da notícia sobre a falta de água. As campanhas a favor do uso consciente de água são quase tão antigas quanto andar para trás. Me lembro, desde pequeno, que não se devia lavar a calçada com mangueira. Nas aulas de ciências, aprendi que a água era um elemento que, diferentemente de outros elementos na natureza, não poderia ser criado: uma das primeiras sensações apocalípticas de minha vida.

Assim, somos chamados a nos responsabilizarmos pelo seu "bom" uso. E assim fizemos? Eu, particularmente não. Sempre gostei de brincar com água quando criança. Na adolescência, quase cantei um CD inteiro do Tears for Fears durante um banho. Pouco tempo atrás levava meu carro para o lava-rápido sem muita cerimônia, acreditando em São Pedro ou outra santidade para compensar a responsabilidade que me faltava.

Hoje, lendo as notícias, tento fazer diferente: desligar o chuveiro para me ensaboar, não levar mais meu carro para o lava-rápido. Lavar calçada com mangueira nunca mais. Minha torneira da cozinha e a da pia do banheiro foram novamente consertadas e ainda tento pensar como seria possível realizar captação de água da chuva, ou da máquina de lavar, para outros fins.

Estes comportamentos não são íntimos, nem de minha vida privada. Quando refletimos sobre nosso cotidiano considerando o cotidiano do vizinho, somos públicos, somos políticos. E é essa política que a dita "política" dos diversos sites e páginas do facebook combatem, tentando nos fazer acreditar que o outro é responsável por nós (como assim o era quando nossa vida começou não?).

Assim, escrevo tudo para dizer que a nova política não é aquela que inclui o eleitor, mas sim aquela na qual o eleitor se implica, não como parte do processo democrático, mas como o todo, detentor do poder que a democracia lhe reserva.

É mais um menos como parafrasear Maria Rita Kehl, quando se questiona do porquê, em um feminicídio, uma mulher ser morta com doze tiros, sendo que com um bastaria. Dentro os diversos tiros nomeados de “impunidade”, “corrupção”, entre outros, ela termina seu texto afirmando que o décimo segundo tiro contra aquela mulher era, na verdade, ela, Maria Rita Kehl.


Neste caso, somos nós, em gota d´água.

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