domingo, 16 de março de 2014

Máquina de lavar

Minha mãe dizia que máquinas de lavar eram fabricadas com o propósito não apenas de lavar roupas, mas também com o propósito de quebrar. A afirmação dela se baseava na seguinte ideia: máquina quebrada gerava lucro para o fabricante (em tempos de monopólio), que venderia mais máquinas de lavar. A assistência técnica autorizada também lucraria cada vez mais, por meio dos intermináveis consertos.

Hoje em dia me questiono entre a ideia de minha mãe e sua incapacidade de lidar com máquinas de lavar. Será que era ela que as quebrava? Questionar as qualidades de sua própria mãe é um ato particular de maturidade, sobretudo quando se confia nas diversas e demais qualidades que ela pode ter. Sim, ela poderia ser uma verdadeira destruidora de lavadoras.

Independentemente disso, a ideia de ser “fabricada para quebrar” nunca me saiu da cabeça, sobretudo estendo esta qualidade para outros objetos ou coisas, especialmente quando penso nas relações interpessoais. Muitos anos depois (e depois de acompanhar a máquina de lavar de minha mãe quebrar infinitas vezes) venho a ler Zigmund Bauman e me surpreender com seus escritos sobre tempos de liquidez ou efemeridade.

É como se ele dissesse o seguinte: se antes as máquinas de lavar eram feitas para não durar, hoje tudo é feito para não durar, especialmente os relacionamentos (um fenômeno que parece novo, mas deixa de parecer quando escutamos When I Fall in Love, um clássico dos anos cinquenta).

As horas voam, o tempo se esgota e a fluidez cada vez maior torna-se uma verdadeira ameaça e nossas lembranças, que demandam tempo para serem registradas. Quanto maior a liquidez, maior o esquecimento e maior a necessidade de viver aquilo que já foi vivido e se perdeu.

Ou será que esta foi a maneira que encontramos para realizar um desejo curioso de conquistar o esquecimento? Recorrer à inquietude, aos bares diluindo a vida aos poucos, ao recalque que ilusoriamente nos livra da responsabilidade daquilo que sofremos e fazemos.

Em tempos de efemeridade, a lembrança é o maior bem, a maior herança e as vezes o maior dos pesadelos.

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