domingo, 28 de dezembro de 2014

Uma despedida só pode se realizar plenamente quando nos é dada a possibilidade de retornar. O retorno, neste caso, é uma condição. Despedida sem retorno é pior que a morte, é esquecimento.
(continua).

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Como ler um livro

O psicanalista e poeta Rubem Alves (1933 – 2014) dizia que pessoas sábias eram aquelas que, entre outras qualidades, sabiam caminhar sem rumo definido. Para elas, o importante era caminhar por caminhar, e não caminhar para chegar a um determinado lugar. Em outras palavras, a caminhada, seja qual ela fosse e para onde quer que ela se dirigia, era importante em si, não condicionada ao seu objetivo.

Experimente você mesmo(a) caminhar sem rumo. Eu já tentei algumas vezes, e posso dizer que se trata de uma experiência curiosa e singular. Quem caminha sem rumo não se perde, se encontra! Seria algo mais ou menos parecido com o comportamento de comprar um livro em uma livraria. Se você for o tipo de pessoa que não gosta de perder tempo e planeja seus passos deliberadamente, aposto que você iria à uma livraria sabendo a priori qual livro irá comprar. Deve ser assim que a maioria das pessoas fazem.

Mas convido você a fazer diferente: dentre centenas e mais centenas de diferentes capas, cores, texturas, tamanhos e assuntos, caminhe pela livraria e deixe que um livro lhe chame a atenção, ou seja, vá a uma livraria e permita-se ser escolhido por um livro. A experiência é igualmente singular. 

Eu levei anos para perceber que os livros são como pessoas: eles são carregados de palavras e sentimentos. São amáveis, odiáveis, surpreendentes e carregam em si a diversidade presente em cada ser humano, representado por meio de suas infinitas características. Os livros estão vivos!

Quem se obriga a ler livros até o final ainda não aprendeu a ler um livro. Quem se obriga a entender tudo o que um livro diz também não. Aliás, quem se obriga a ler um livro ainda não aprendeu a ler. Como o amor, o ato de ler é uma virtude e não um dever. Por isso livros são como pessoas, porque além de toda a diversidade que carregam, sua totalidade nunca poderá ser compreendida. Como pequenas notas de rodapé, ou frases incompreensíveis, existe sempre algo que nos escapa.

E se você caminhar sem rumo definido, ou caminhar por uma livraria e deixar um livro lhe escolher, e ainda ler um livro e deixar-se compreender aquilo que puder compreender, você descobrirá que, possivelmente, você ainda não caminhou e ainda não leu, verdadeiramente.

É o que eu desejo para você em 2015, caminhadas e leituras, para onde quer que seja.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Você sabe como se lê um livro?
Se imaginarmos que ele é uma pessoa, como será que ele gostaria de ser lido?

sábado, 8 de novembro de 2014

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sushiman

No Japão, existe um tipo de peixe bastante apreciado, especialmente pelo seu paladar e pela sua raridade. De tão raro, este peixe é servido e degustado apenas em locais especializados e autorizados pela lei sanitária do país. O motivo se deve ao fato de que, apesar de saboroso e raro, este peixe possui em seu fígado um componente químico altamente letal aos seres humanos, o qual, se ingerido, pode causar falência respiratória e paralisia.

O consumo inapropriado e incauto deste peixe já teria causado a morte de mais de cem pessoas e, por isso, sua degustação é cercada de cuidados: somente um sushiman altamente especializado é capaz de cortar o animal com a precisão necessária para extrair o melhor de sua carne sem contaminá-la com suas entranhas mortais. Para se ter uma ideia, ao final da preparação, os restos do peixe são colocados em um compartimento próprio, para posteriormente serem dispensados por coletores especializados, em local especializado.

Quanta especialização para tamanho cuidado! Não seria, então, mais fácil, não comer tal peixe? Afinal, não precisa ser biólogo para se ter a noção da variedade de espécies marítimas que temos a nossa disposição, com igual ou superior sabor.

A resposta é sim, porém, os objetos que fazem parte de nossas vidas também vivem a nadar em nossos mares inconscientes, alimentando-se de verdadeiros recifes de valores e sentidos, escapando-nos ao controle, nas ondas de nossas impulsividades. Assim, alimentar-se de um peixe potencialmente mortal pode representar também sentir o gosto da vitória de nossa potência contra a morte que nos espreita todos os dias, testar os limites de nosso sadismo e nosso masoquismo ao tempero da adrenalina presente a cada mordida.

Ou então, para alguns, o peixe é bom (ponto).

Tais interpretações se aplicam para aqueles que o procuram, e não poderia deixar de lado a consideração por aqueles que, apesar de não procurarem se alimentar do peixe, acabam tendo que encará-lo. Sabemos, pois, que a vida não pode ser medida pela lógica da Física, da causa e efeito, da "gentileza que gera gentileza". Quando nosso percurso é atravessado pelo outro, pelo diferente (que, vale dizer, nos é inconscientemente familiar), podemos ser surpreendidos com efeitos diferentes e até mesmo contrários. Nossas ações, por mais nobres que sejam, não são capazes de garantir nosso amanhã.

Nas relações humanas, no Japão ou em qualquer lugar do mundo, as possibilidades tem dimensões oceânicas, e nelas as chances de nos encontrarmos com pessoas altamente destrutivas são inescapáveis. Envenenadas pela perversidade, estas pessoas exigem de nós o respeito pela sua condição monstruosamente humana, bem como a precisão de nossas intervenções, na busca de segurança e na esperança de continuar a viver sem amargar demais.

Uma tarefa difícil de se fazer, mas que, quando preparada adequadamente, pode ser bastante saborosa.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Nós em gota d´água

Nós, humanos, somos especialistas em atribuir ao outro determinadas responsabilidades e acontecimentos que também são de nossa alçada, sobretudo aqueles que nos ameaçam ou não nos agradam. Em período eleitoral então, esta natureza é exacerbada, em função de ideologias partidárias que servem para apoiar ou não determinados candidatos.

Um exemplo é o da notícia sobre a falta de água. As campanhas a favor do uso consciente de água são quase tão antigas quanto andar para trás. Me lembro, desde pequeno, que não se devia lavar a calçada com mangueira. Nas aulas de ciências, aprendi que a água era um elemento que, diferentemente de outros elementos na natureza, não poderia ser criado: uma das primeiras sensações apocalípticas de minha vida.

Assim, somos chamados a nos responsabilizarmos pelo seu "bom" uso. E assim fizemos? Eu, particularmente não. Sempre gostei de brincar com água quando criança. Na adolescência, quase cantei um CD inteiro do Tears for Fears durante um banho. Pouco tempo atrás levava meu carro para o lava-rápido sem muita cerimônia, acreditando em São Pedro ou outra santidade para compensar a responsabilidade que me faltava.

Hoje, lendo as notícias, tento fazer diferente: desligar o chuveiro para me ensaboar, não levar mais meu carro para o lava-rápido. Lavar calçada com mangueira nunca mais. Minha torneira da cozinha e a da pia do banheiro foram novamente consertadas e ainda tento pensar como seria possível realizar captação de água da chuva, ou da máquina de lavar, para outros fins.

Estes comportamentos não são íntimos, nem de minha vida privada. Quando refletimos sobre nosso cotidiano considerando o cotidiano do vizinho, somos públicos, somos políticos. E é essa política que a dita "política" dos diversos sites e páginas do facebook combatem, tentando nos fazer acreditar que o outro é responsável por nós (como assim o era quando nossa vida começou não?).

Assim, escrevo tudo para dizer que a nova política não é aquela que inclui o eleitor, mas sim aquela na qual o eleitor se implica, não como parte do processo democrático, mas como o todo, detentor do poder que a democracia lhe reserva.

É mais um menos como parafrasear Maria Rita Kehl, quando se questiona do porquê, em um feminicídio, uma mulher ser morta com doze tiros, sendo que com um bastaria. Dentro os diversos tiros nomeados de “impunidade”, “corrupção”, entre outros, ela termina seu texto afirmando que o décimo segundo tiro contra aquela mulher era, na verdade, ela, Maria Rita Kehl.


Neste caso, somos nós, em gota d´água.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dia do Psicólogo

Parabéns para você que já recebeu coronhada de um três-oitão de plástico. Que já levou espadada nas costas, foi amarrado com durex. Que já fez frango frito com massinha de modelar, fingiu que comeu e disse que estava uma delícia.

Parabéns a você que morre e ressuscita mais rápido que Jesus Cristo, que dança, pinta o "setting", que joga bola, mesmo odiando profundamente futebol. Parabéns a você que ajuda a entender que o "pápá" de uma criança brincando de atirar pode representar as saudades de um "papái" perdido.

Parabéns a você que se presta a ser odiado, em nome da cura, da transformação. Parabéns a todos os psicólogos e psicólogas que, depois de passarem por tudo isso em um único dia, voltam satisfeitos para casa sabendo que tudo valeu a pena.

domingo, 27 de julho de 2014

"Uma felicidade que se consome no instante em que se realiza é uma felicidade pela metade, um aperitivo que desperta a fome sem poder saciá-la". (COSTA, 2004).

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sobre o Amor

O amor é perturbador.
Porque antecede o eu, antecede nossas escolhas.
Nos encontra na passividade e no desamparo, no início da vida, onde tudo é uma coisa só.
Transmitido por nossos pais, o amor é um eterno estrangeiro dentro de nós,
Em busca de alguém que o torne familiar.

(baseado no texto "Sobre o Amor" de Fábio Roberto Rodrigues Belo e Lúcio Roberto Marzagão, 2006)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Em breve o tempo voltará a correr a favor da escrita e do pensamento, da reflexão e da elaboração. Em breve o tempo voltará a correr a favor do Espaço Potencial.

domingo, 16 de março de 2014

Máquina de lavar

Minha mãe dizia que máquinas de lavar eram fabricadas com o propósito não apenas de lavar roupas, mas também com o propósito de quebrar. A afirmação dela se baseava na seguinte ideia: máquina quebrada gerava lucro para o fabricante (em tempos de monopólio), que venderia mais máquinas de lavar. A assistência técnica autorizada também lucraria cada vez mais, por meio dos intermináveis consertos.

Hoje em dia me questiono entre a ideia de minha mãe e sua incapacidade de lidar com máquinas de lavar. Será que era ela que as quebrava? Questionar as qualidades de sua própria mãe é um ato particular de maturidade, sobretudo quando se confia nas diversas e demais qualidades que ela pode ter. Sim, ela poderia ser uma verdadeira destruidora de lavadoras.

Independentemente disso, a ideia de ser “fabricada para quebrar” nunca me saiu da cabeça, sobretudo estendo esta qualidade para outros objetos ou coisas, especialmente quando penso nas relações interpessoais. Muitos anos depois (e depois de acompanhar a máquina de lavar de minha mãe quebrar infinitas vezes) venho a ler Zigmund Bauman e me surpreender com seus escritos sobre tempos de liquidez ou efemeridade.

É como se ele dissesse o seguinte: se antes as máquinas de lavar eram feitas para não durar, hoje tudo é feito para não durar, especialmente os relacionamentos (um fenômeno que parece novo, mas deixa de parecer quando escutamos When I Fall in Love, um clássico dos anos cinquenta).

As horas voam, o tempo se esgota e a fluidez cada vez maior torna-se uma verdadeira ameaça e nossas lembranças, que demandam tempo para serem registradas. Quanto maior a liquidez, maior o esquecimento e maior a necessidade de viver aquilo que já foi vivido e se perdeu.

Ou será que esta foi a maneira que encontramos para realizar um desejo curioso de conquistar o esquecimento? Recorrer à inquietude, aos bares diluindo a vida aos poucos, ao recalque que ilusoriamente nos livra da responsabilidade daquilo que sofremos e fazemos.

Em tempos de efemeridade, a lembrança é o maior bem, a maior herança e as vezes o maior dos pesadelos.