domingo, 28 de abril de 2013

Grande Cidade


A grandeza tem seu preço, e isso uma cidade grande pode nos contar. Diferentemente das cidades pequenas, que nos convidam a olhar à nossa volta, as grandes cidades nos convidam (ou nos obrigam) a olhar para cima, fazendo da verticalidade seu novo horizonte.

E ao olharmos para cima, percebemos a grandeza de suas construções em comparação com a pequenez de nossos corpos, tão apressados e famintos por novidades a serem consumidas sem muita demora. Pequenos corpos imensos em desejo.

Porque em grandes cidades sempre queremos mais: mais amor por favor, mais paz por favor, mais educação por favor. É um pedido um tanto difícil, pois afinal, grandezas não reconhecem favores.

Nas grandes cidades o tempo passa mais rápido e o dia dura menos. As calçadas, quando imensas, tornam-se pequenas e apertadas. A agilidade garante o espaço e a política do “don´t look back” impera como uma saída satisfatória, menos para aquele que vem logo atrás, pensando da mesma maneira. Uma hora ou outra, a porta bate na cara de alguém.

Pode bater violentamente, e a violência não surpreende nas grandes cidades, pelo menos não surpreende mais que a gentileza. É impossível saber qual delas é capaz de paralisar com maior intensidade. A gentileza gera a mesma perplexidade que a violência um dia gerou quando a cidade ainda era pequena.

E então plantamos flores, para reviver a delicadeza que tivemos,
Adotamos cachorros, para experimentar a fidelidade que perdemos,
Rezamos, para sentir a proteção que quando pequenos sentíamos,
Como no tempo em que a cidade era pequena, interior e especialmente particular.

Obs.: escrevi este texto pensando em como seria curioso se existisse um programa aos moldes do “Brasil Urgente”, mas ao invés de noticiar as mostruosidades humanas, destacasse as gentilezas do cotidiano de uma cidade (risos)... seria igualmente urgente.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Fechando o (meu) diário

Me parece que os diários não precisam mais de cadeados. Na verdade eles parecem fazer questão de não se manterem fechados a qualquer custo, uma vez que se assim fossem despertariam alguma coisa de negativo ou impróprio.

Lembro de um livro muito bom chamado "A História da Sexualidade". Nele, o filósofo Michel Foucault (1926-1984) afirma que aquele que acredita que um assunto, como o sexo, por exemplo, era proibido de ser falado nos tempos de nossos pais, avós, bisavós, trisavós (e assim por diante) está redondamente enganado.

Muito pelo contrário, disse Foucault. Os assuntos tabus eram quase de discurso obrigatório, inclusive em instituições religiosas, que dispunham até de espaços e pessoal especialmente voltados para tanto. A ideia era falar, falar bastante, mesmo que aquilo que seria falado fosse um escândalo sem precedentes. Confessar era necessário.

Mas por que falar abertamente sobre tudo? Por que tal "obrigatoriedade"? Foucault responde sem pestanejar: controle. No desenvolvimento da sociedade, disse ele, os homens e mulheres não precisaram mais matar quando descobriram que poderiam controlar seus semelhantes, conhecer suas perspectivas, seus desejos e assim, se prevenirem e preverem o que poderia acontecer em seu meio.

O falar sobre assuntos tabus, como sexualidade, por exemplo, e demais instintos mais primitivos do ser humano era uma forma de controle, uma forma de queimá-los em uma fogueira diferente daquela da inquisição, uma fogueira da moral, da ética, dos valores que crepitam em todos nós (vale lembrar que Freud foi um dos protagonistas desta história ao propor a cura pela fala).

Os segredos portanto, deveriam ser retirados de todas as pessoas, como que um diário que nunca poderia ser fechado, fazendo com que os mesmos perdessem seu sentido. Foucault critica: um segredo revelado é um valor perdido.

Se concordarmos com a ideia de Foucault, verificamos que esse tipo de coisa não mudou muito desde os tempos passados. Na sociedade do espetáculo que vivemos, fazemos questão de nos exibir, de relatar nossos sentimentos nas redes sociais, descrever minuciosamente nossas relações sexuais. Os programas de televisão, por exemplo, são voltados para a exibição das emoções, em detrimento à exibição das razões, como era no passado, como afirma a filósofa Marilena Chauí.

Hoje, ter algo para confessar ou exibir é ser alguém para se observar, ou seja, é TER para SER.

É importante ressaltar que tais considerações não desqualificam os benefícios da expressividade, mas apenas questionam a obrigatoriedade de se exibir tudo aquilo que se sente ou que se tem, como se no interior das pessoas não restasse lugar para que tais conteúdos fossem colocados e suportados.

Ou será que ultimamente não estamos conseguindo nos suportar?

Ainda defendo a ideia de que não há a necessidade de incinerar ou controlar nossa intimidade por meio da exibição. Não há a necessidade quando se entende que silêncio não é sinônimo de vergonha, e vergonha não é sinônimo de culpa, e culpa não é sinônimo de falha.

Assim fecho o meu diário, revelando um trecho e velando o demais.