sábado, 22 de setembro de 2012

O menino e o mar


É de pequeno que se descobre a imensidão do mar, da mesma maneira que é de pequeno que se descobre que é por meio desta imensidão que ele deve ser respeitado. Quase todo mundo conhece o prazer de se lançar em nados mais profundos e distantes, descobrir coisas novas e deixar, por alguns momentos, que a correnteza cumpra seu papel de nos mostrar que nem tudo está sob o nosso domínio.

Para alguns isso é excitante e para outros um grande motivo de terror. É uma questão singular: o mar é uma das primeiras experiências de imensidão que temos, e fico me perguntando se é a partir da relação com ele que decidimos como iremos nadar ou navegar no percurso de nossas vidas.

Um montante de água em movimento, cobrindo um mundo de cores, espécies diversas e uma porção de coisas afundadas (qualquer alusão à vida uterina pode ser incluída aqui).

O que faremos? Pegaremos uma bóia que nos mantenha seguramente no ambiente que já conhecemos? Construiremos um barco e nos manteremos no horizonte? Pegaremos uma prancha e nos emocionaremos com a beleza das superfícies? Um equipamento de mergulho para ver o que a natureza faz questão de esconder? Ou ir nadando mesmo sem nenhum instrumento?

Não sei dizer, mas estes questionamentos me fazem lembrar a história de um menino que não podia ver o mar que já se lançava à ele, sem bóias nem limites. Por vezes sua mãe tinha que mandar algum morador da praia ir buscá-lo no fundo e logo que retornava à areia, o menino já planejava seus próximos lançamentos rumo à imensidão.

Esta situação se repetiu, na vida adulta do menino, que não hesitava em lançar-se em novas experiências, muitas vezes sem proteção alguma. Talvez ele achasse que assim estava atingindo algo relacionado a liberdade, mas as feridas deixadas pelos mergulhos imprudentes o faziam lembrar que por mais que tentasse, a imensidão do mar era implacável, e que liberdade não necessariamente produzia feridas.

Ele não podia ser o mar, não poderia desafiá-lo desta maneira, senão morreria.
Decidiu ser outra coisa, continuar um menino, talvez!
Que utiliza da imensidão do mar para escrever sobre limite.

Limite é vida.

Obs.: Não se preocupem com o menino do exemplo. Apesar de ele ainda se arriscar em águas profundas, hoje ele aprendeu que ficar no raso também pode ser um grande barato!