domingo, 18 de março de 2012

Que seja eterno enquanto dure

E se não durar, significa que não valeu?

E se constatarmos que os relacionamentos que estabelecemos com as coisas e as pessoas que nos cercam podem ser tão frágeis e finitos quanto nossos ideais para com elas?

Para alguns, características como fragilidade e finitude dos objetos e relacionamentos são aquelas que legitimam a desvalorização dos mesmos. Para outros, são exatamente estas características que fazem daquele relacionamento ou daquele objeto algo de valor inestimável.

Talvez os primeiros não gostem de receber flores, porque sabem que elas irão murchar. Os segundos, por sua vez, gostem de recebê-las, mesmo sabendo sobre o destino fatal de sua beleza.

Estes, talvez, sabem que nenhuma perda é absoluta.

E também sabem onde fica o próximo jardim.

quinta-feira, 15 de março de 2012

"Que seja eterno enquanto dure"

E se não durar, significa que não valeu?

E se constatarmos que os relacionamentos que estabelecemos com as coisas e as pessoas que nos cercam podem ser tão frágeis e finitos quanto nossos ideais para com elas?

(continua)

domingo, 4 de março de 2012

Adele e a arte de chorar

“Se ontem o tabu da sociedade era a liberdade e o sexo, hoje o tabu é a morte”.

Uma das muitas qualidades admiráveis dos artistas é a capacidade que eles tem de expressar opiniões e sentimentos muitas vezes difíceis de expressar. Os artistas dão contorno ao inominável, não apenas por meio de um novo nome, mas por meio de um novo sentido.

Foi por meio da arte, por exemplo, que Caetano Veloso cantou a liberdade em tempos de ditadura, bem como também foi por meio da arte que Madonna cantou a crítica a hegemonia católica e posteriormente cantou o sexo. Sim, estou afirmando cantou o sexo e não cantou sobre o sexo porque o artista não canta sobre um objeto, ele canta, pinta, dança e toca o próprio objeto.

Hoje vemos alguns artistas, especialmente cantores, tentando trilhar os caminhos de seus antecessores, e que mesmo assim não conseguem atingir o brilhantismo dos mesmos. Desconfio que o motivo não se concentra no erro em seguir a receita do outro, mas no erro em acreditar que o tempo de hoje é o mesmo de aquele que passou.

Por mais único e especial que seja o talento de um artista, seu sucesso não será possível e nunca poderá ser entendido como desenlaçado de um momento histórico no qual ele advém.

Não precisamos mais de Caetano Veloso para nos libertarmos (apesar de não sabermos o que fazer com a liberdade que conquistamos), nem de Madonna para buscarmos ou não religiões que nos fazem mais sentido ou para atingirmos maior realização pessoal e sexual. Hoje tudo isso não precisa ser cantado.

Mas e quando a questão refere-se à perda? Ou mesmo à morte e o chorar? Se estivermos certos que o tabu dos dias de hoje é a morte (como na frase que abre este texto), precisamos de alguém ou algo para nos aproximarmos dele, e por este caminho que compreendo a evidência de Adele.

Adele não se tornou uma cantora de sucesso apenas pela qualidade de sua voz, mas possivelmente por cantar num momento onde a depressão se sobressai diante do fracasso dos ideais narcísicos. Este fracasso se concretiza nas suas letras melancólicas e até em seu corpo, deliberadamente.

Diferente de outros artistas, Adele canta a morte dos relacionamentos, a finitude do amor derrotado, e todos que a admiramos talvez precisemos de sua ajuda, seja para chorar, seja para constatar que apesar do que aconteceu, ficar triste não é feio.

E alguém já viu e ouviu uma pessoa chorar de forma tão bonita como ela?