domingo, 5 de fevereiro de 2012

Homossexualidade: família e homofobia (parte final)

“A homossexualidade possui raízes: na família que a deserda e na sociedade que a destitui”.

Por volta do ano 2000, ou até mesmo antes, não me lembro ao certo, o governo federal produziu e veiculou uma propaganda muito interessante: nela, um garoto batia a porta de uma casa. Um homem mais velho abria a porta e dizia: “Ele não quer mais ficar com você, vá embora”. O garoto então ia embora, e o homem, após fechar a porta, olhava para o filho, o qual se encontrava abraçado com sua mãe e junto de sua irmã, dizendo: “ele não vai mais fazer mal a você”.

Foi uma das primeiras campanhas públicas a favor da visibilidade do homossexual no Brasil e, em minha opinião, a campanha mais moderna e eficaz que já foi feita até o momento para este público.

Diferentemente do estabelecimento da relação violenta e desencontrada entre heterossexualidade e homossexualidade no cotidiano e nas campanhas atuais, o conflito ilustrado naquela se desenvolvia dentro de uma relação homossexual entre dois garotos, legitimando, por meio de um conflito dramático, a existência do amor entre duas pessoas do mesmo sexo.

Além deste diferencial na campanha, havia outro igualmente importante: a presença da família, acolhendo o irmão/filho homossexual e intervindo diante do conflito amoroso do garoto, numa postura de cuidado para com aquele que é diferente e ao mesmo tempo parte de um contexto familiar.

Esta é a potência que família teria para oferecer para o homossexual: ela poderia ajudar a transformar “o estranho”, familiar.

Porém, aparentemente e infelizmente, a trajetória das questões homossexuais na atualidade parece ter tomado um rumo um tanto antagônico quando comparado aquele descrito acima, sendo a família, aos poucos, distanciada de tudo aquilo que se refere à homossexualidade e seu lugar, familiar e social.

Seria o grande discurso homossexual de exaltação da diferença (“eu sou gay, sou diferente de você”) que o levou a sua desfamiliarização? Não tenho muitas hipóteses para descrever o que levou a este distanciamento, mas posso dizer que ele contribuiu para a maior sacralização da instituição familiar e a degeneração da homossexualidade, sendo a segunda a grande ameaça da primeira.

A homossexualidade, em maior ou menor grau, tornou-se a herança maldita da instituição familiar, capaz extinguir suas gerações, perverter suas crianças e destruir seus laços sanguíneos, por vezes vistos equivocadamente como os grandes responsáveis pela transmissão dos valores familiares.

É nesta relação esgarçada que a violência contra o homossexual encontrou um terreno fértil para a proliferação de suas suposições anti-naturais da homossexualidade, agora desfamiliarizada e carente de referências que a humanizem.

Quero ressaltar aqui que preferi utilizar a descrição “violência contra o homossexual” ao utilizar “homofobia”, e vou justificar minha escolha porque acredito que a adoção deste conceito veio a contribuir ainda mais com a violência que já ocorria contra o homossexual.

Quando do homicídio de Edson Néris da Silva (espancado até a morte ao ser visto junto de seu companheiro numa praça da região central de São Paulo), também por volta do ano 2000, o conceito de homofobia não era muito conhecido. Naquela época, este episódio recebeu o nome de crime de intolerância, ou mesmo crime de ódio, algo que envolve uma caracterização jurídico-penal, portanto criminal do fato.

Aos poucos, e com o aumento da incidência deste crime, esta caracterização jurídica deu lugar a uma caracterização psicológica, recebendo o nome de homo/fobia, que quer dizer “aversão, medo ou repulsa de homossexuais”.

Assim, a qualificação do crime, que anteriormente recaia sobre o fato, recaiu sobre a pessoa que o pratica, a qual, como o homossexual, também recebeu um rótulo psicológico.

Homofóbico seria o heterossexual, ou seria então o negativo do homossexual, um homossexual subdesenvolvido, temeroso, medroso, covarde diante à imponência de uma homossexualidade exposta e vanguardista.

Lembro, obviamente, que condeno a violência contra homossexuais, como também condeno a estigmatização das pessoas, independentemente de suas orientações sexuais, e é por isso que condeno também o uso do conceito de homofobia: ao rotular, ele sustenta o ciclo de violência, convidando à rivalidade e verticalização das sexualidades. Homofobia não é um crime, é um diagnóstico pretenso.

Não importa se a pessoa que agride o homossexual sente repulsa, medo, asco, desaprovação ou possui desejos reativos e reprimidos, o que importa é que o crime que ele pratica deve ser penalizado criminalmente.

Ouso até a dizer que ele também, como o homossexual, deva ser familiarizado, pois acredito que é pelo caminho da familiaridade que é possível encontrar um futuro mais humano e cidadão para todos.