sábado, 14 de janeiro de 2012

Homossexualidade: uma breve contextualização (parte 1)

Este texto se divide em três partes: a primeira descreverá uma breve contextualização como introdução do tema. A segunda tratará de descrever os efeitos da estigmatização do homossexual em sua relação afetiva e sexual. Por fim, a terceira abordará uma visão crítica sobre a homofobia (sugestão de Nilton Carlos) e as políticas públicas voltadas para o público homossexual.

Se concordarem comigo que o percurso de qualquer pessoa rumo à construção de sua identidade e lugar social é complexo e desafiador, certamente concordarão que o mesmo percurso, para um homossexual, ganha particularidades ainda mais custosas.

Primeiramente, porque vivemos no Brasil, país da sensualidade feminina fincada nas curvas dos litorais, refletida na música, nas produções artísticas e até nas definições arquitetônicas de sua própria capital. A mesma inspiração se evidencia na publicidade, a qual exibe o corpo da mulher em associação aos demais produtos de consumo: cerveja, protetor solar, chuveiro, toalhas de banho são os exemplos mais explícitos. Por outro lado, tal artifício é aplicado, dissimuladamente até, em comerciais de massageadores fisioterápicos e óculos de sol (veja só!).

Tais características descrevem a sensualidade do corpo da mulher como o principal produto de exportação e exploração do país (que ainda não aprendeu a crescer sem explorar o que lhe é e não é alheio).

Em segundo lugar, em detrimento ao primeiro, verifica-se certa degradação na publicização do corpo do homem, o qual, em comparação ao da mulher, invariavelmente aparece fora dos padrões de beleza. Também na publicidade, a exposição do corpo do homem sofre uma espécie de ridicularização, caracterizadas ora pela limitação instintiva de seus desejos, ora por comportamentos pueris, até mesmo para a mais inocente criança (em propagandas de cerveja vemos o melhor dos exemplos).

Porém, diferentemente do que ocorre na publicidade, é nas novelas que os corpos masculinos se exibem de forma a estarem mais adequados ao desejo de consumo, sobretudo das mulheres, principal público visado por tal atração.

O corpo da mulher é aquele que mais se evidencia, não apenas por sua beleza, mas pelo seu potencial de uso e de abuso inserido numa sociedade patriarcal, que desde cedo estabelece quem é o consumidor (homem) e quem é o consumido (mulher).

Em terceiro lugar, porque verifica-se também, nas instituições de ensino, a transmissão de conhecimentos que favorecem, sobretudo por meio das disciplinas de biologia e literatura, a noção restringida da natureza humana (apenas com finalidades reprodutivas) e sua aplicação nos poemas, contos e peças de teatro (Romeu e Julieta, Dom Casmurro, entre outros) que celebram não apenas a criatividade, mas o romantismo como algo exclusivo da cultura heterossexual.

Por fim, em quarto lugar, não há como negar as intenções normativas e violentas herdadas da ditadura militar e em funcionamento até então, ás vezes combinadas com alguns ideais religiosos, onde juntos sustentam que a condição de ser diferente justifica que este seja digno de morrer, ou de se fazer calar.

Muitas outras particularidades poderiam ser somadas àquelas descritas acima (inclusive a já famigerada história da categorização e patologização das sexualidades pelas disciplinas quem compõem a área da saúde), mas penso que estas quatro já podem nos oferecer uma pequena noção acerca do recorte social no qual o homossexual é “inserido”.

Se compreendemos a construção da identidade e do lugar social de uma pessoa como produto de interações com outras pessoas e referências sociais, a ausência destas para o homossexual o sujeita para um lugar da ordem da anormalidade, num mecanismo que sustenta, transgeracionalmente, a bestialização e estigmatização da homossexualidade.

Quais as conseqüências destas particularidades nas experiências afetivas e sexuais e qual o peso do estigma (também lê-se preconceito) no cotidiano do homossexual?

(continua)

Um comentário:

  1. Fiquei em dúvida se utilizei muitos termos técnicos para escrever a parte 1. Será? Se você achou que sim, fique tranqüilo. Penso que a parte 2 será escrita no conforto de uma contextualização anterior, afinal, não consigo fazer análises sem considerar um mínimo recorte sócio-histórico, para não correr o risco de deixar a alienação estragar todo o trabalho.

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