domingo, 15 de janeiro de 2012

Homossexualidade: estigma, amor e sexo (parte 2)

Penso que o primeiro problema quando se fala sobre homossexualidade é a sua rotulação, que antecede até a estigmatização, como tentarei explicar a seguir.

Homossexual é uma pessoa, homem ou mulher, que apresenta preferência sexual por alguém do mesmo sexo. Se esta rotulação terminasse com aquele ponto final após o “sexo”, não haveria muito que discutir sobre o assunto.

Porém sabemos que não é assim. A preferência sexual por alguém do mesmo sexo traz consigo questionamentos das mais variadas ordens, sobretudo ligadas ao determinismo biológico e religioso que sustenta a idéia “do homem para a mulher e a mulher para o homem”.

Nesta lógica, as demais variações da preferência sexual então parecem ser colocadas no estigma perverso que o homossexual recebe e o qual pode fazê-lo sofrer: é aquele adepto do sexo anal e sua nomeação social de homossexual refere-se aquilo que ele faz no privado. Imaginou como deve ser para alguns homossexuais lidarem com isso? Serem conhecidos publicamente por aquilo que eles fazem no privado? (por este motivo o armário ás vezes é um lugar muito mais confortável que o mundo externo, pois é o único refúgio desta privacidade).

Penso que este é o grande diferencial quando se trata da homossexualidade. Tanto sua rotulação quanto sua estigmatização estão baseadas na sexualidade, e sobre isso cabe uma informação importante:

Não é preciso estudar para saber que quando o tema é sexualidade a discussão não cabe em racionalismo matemático de “a” é para “b” e “c” + “d” = “e” (ou cd!). A sexualidade está sempre além ou aquém do ser humano, é dinâmica e, acredite, não é algo a ser resolvido. Sexualidade resolvida, em minha opinião, é sexualidade morta.

Quando consideramos a sexualidade de forma dinâmica e não estática, estamos concebendo-a não de forma certa ou errada, mas sim da forma como ela se apresenta, tanto para homossexuais, quanto para bissexuais e heterossexuais.

É entendendo a sexualidade nesta perspectiva que podemos caminhar para a humanização da homossexualidade, pois, percebemos que a prática do sexo anal não é exclusividade do sexo homossexual e até hoje não se tem notícia de nenhuma pessoa, homo, bi ou heterossexual que faz uso de sua boca com finalidades exclusivamente alimentares.

Retomando agora ao problema da estigmatização, seríamos muito ingênuos ou mesmo desinformados se acreditarmos que isso nada interfere na maneira pela qual o homossexual se relaciona com as outras pessoas.

O não reconhecimento da união civil homossexual e sua não integração na cultura favoreceu, ao longo de anos, o surgimento de guetos onde, por falta de ambiente seguro para a construção das relações, a busca de prazer é tarefa principal. Sendo assim, as relações amorosas e românticas, que demandam este tipo de ambiente, deram lugar a busca pelo sexo em sentido restrito.

Isto é algo que muitas pessoas vivenciam, e que os homossexuais, em especial, sabem: na clandestinidade, as relações amorosas tendem a sucumbir.

Porém muita coisa mudou ultimamente: o aumento da visibilidade para este público ajudou os homossexuais a encontrarem formas mais variadas de vivenciarem a sua sexualidade, deixando de incorporar o clichê da alegria maníaca e maçante diante do outro.

Em contrapartida, o aumento da visibilidade veio combinado com o aumento da violência contra o homossexual, o qual, ao meu ver, cedeu ao discurso da sexualidade “matemática” e reivindicou na biologização, o seu lugar na sociedade ao afirmar que “nasceu assim”.

Se ele "nasceu assim", resta lugar para a responsabilidade da família e do Estado?

(continua)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Homossexualidade: uma breve contextualização (parte 1)

Este texto se divide em três partes: a primeira descreverá uma breve contextualização como introdução do tema. A segunda tratará de descrever os efeitos da estigmatização do homossexual em sua relação afetiva e sexual. Por fim, a terceira abordará uma visão crítica sobre a homofobia (sugestão de Nilton Carlos) e as políticas públicas voltadas para o público homossexual.

Se concordarem comigo que o percurso de qualquer pessoa rumo à construção de sua identidade e lugar social é complexo e desafiador, certamente concordarão que o mesmo percurso, para um homossexual, ganha particularidades ainda mais custosas.

Primeiramente, porque vivemos no Brasil, país da sensualidade feminina fincada nas curvas dos litorais, refletida na música, nas produções artísticas e até nas definições arquitetônicas de sua própria capital. A mesma inspiração se evidencia na publicidade, a qual exibe o corpo da mulher em associação aos demais produtos de consumo: cerveja, protetor solar, chuveiro, toalhas de banho são os exemplos mais explícitos. Por outro lado, tal artifício é aplicado, dissimuladamente até, em comerciais de massageadores fisioterápicos e óculos de sol (veja só!).

Tais características descrevem a sensualidade do corpo da mulher como o principal produto de exportação e exploração do país (que ainda não aprendeu a crescer sem explorar o que lhe é e não é alheio).

Em segundo lugar, em detrimento ao primeiro, verifica-se certa degradação na publicização do corpo do homem, o qual, em comparação ao da mulher, invariavelmente aparece fora dos padrões de beleza. Também na publicidade, a exposição do corpo do homem sofre uma espécie de ridicularização, caracterizadas ora pela limitação instintiva de seus desejos, ora por comportamentos pueris, até mesmo para a mais inocente criança (em propagandas de cerveja vemos o melhor dos exemplos).

Porém, diferentemente do que ocorre na publicidade, é nas novelas que os corpos masculinos se exibem de forma a estarem mais adequados ao desejo de consumo, sobretudo das mulheres, principal público visado por tal atração.

O corpo da mulher é aquele que mais se evidencia, não apenas por sua beleza, mas pelo seu potencial de uso e de abuso inserido numa sociedade patriarcal, que desde cedo estabelece quem é o consumidor (homem) e quem é o consumido (mulher).

Em terceiro lugar, porque verifica-se também, nas instituições de ensino, a transmissão de conhecimentos que favorecem, sobretudo por meio das disciplinas de biologia e literatura, a noção restringida da natureza humana (apenas com finalidades reprodutivas) e sua aplicação nos poemas, contos e peças de teatro (Romeu e Julieta, Dom Casmurro, entre outros) que celebram não apenas a criatividade, mas o romantismo como algo exclusivo da cultura heterossexual.

Por fim, em quarto lugar, não há como negar as intenções normativas e violentas herdadas da ditadura militar e em funcionamento até então, ás vezes combinadas com alguns ideais religiosos, onde juntos sustentam que a condição de ser diferente justifica que este seja digno de morrer, ou de se fazer calar.

Muitas outras particularidades poderiam ser somadas àquelas descritas acima (inclusive a já famigerada história da categorização e patologização das sexualidades pelas disciplinas quem compõem a área da saúde), mas penso que estas quatro já podem nos oferecer uma pequena noção acerca do recorte social no qual o homossexual é “inserido”.

Se compreendemos a construção da identidade e do lugar social de uma pessoa como produto de interações com outras pessoas e referências sociais, a ausência destas para o homossexual o sujeita para um lugar da ordem da anormalidade, num mecanismo que sustenta, transgeracionalmente, a bestialização e estigmatização da homossexualidade.

Quais as conseqüências destas particularidades nas experiências afetivas e sexuais e qual o peso do estigma (também lê-se preconceito) no cotidiano do homossexual?

(continua)

domingo, 8 de janeiro de 2012

Are you really born this way?

Aconteceu algo bastante curioso agora: ao decidir escrever sobre homossexualidade, diferentemente da forma pela qual escrevi os demais textos do Espaço Potencial, me deparei levantando todo um arsenal teórico e científico de estudo para encontrar referências sobre o assunto. Por que será que isso aconteceu justamente com este tema? (risos).

Ah, acho que sei o porquê: o problema é a referência. Seria esta uma das maiores pedras no sapato de qualquer homossexual? Encontrar referências, para viver, conviver, para amar e para ser?

Enfim, nas próximas semanas o tema da homossexualidade será abordado no Espaço Potencial e você será muito bem vindo para refletir e discutir sobre sexo, romantismo, estigmatização e homofobia, além de uma das mais importantes questões deste tema na atualidade: are you really born this way?

Nascendo ou não nascendo assim, quais seriam os efeitos da noção de homossexualidade congênita para a consolidação de uma política pública?

Até lá.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Hay que endurecerse sin perderse

Há algumas semanas escrevi no Facebook uma frase que teve certa ressonância. Não me lembro exatamente como eu a escrevi, mas era algo assim:

“Conheço muitas pessoas que se orgulham de ter enrijecido ao longo da vida. Eu me orgulho exatamente pelo contrário: amargar é fácil. O difícil é perder a ternura”.

Um amigo associou esta frase a uma frase de Che Guevara, que dizia: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. A associação foi inevitável, uma vez que as frases são bastante similares, mas penso que elas não são iguais, sobretudo porque eu não estava me referindo à necessidade de endurecerse. Muito pelo contrário, era essa mesma necessidade que eu havia julgado como fácil.

De qualquer forma, esta discussão não é importante. O que quero escrever aqui não se concentra na diferença das sentenças, mas sim no sentido que elas tem e na ressonância que elas encontram em seus leitores.

Não sou nenhum profundo conhecedor da história de Che Guevara, mas sei que ele foi um homem de vida política voltada para a luta contra a alienação e a injustiça social. Foi um homem acostumado às tempestades inerentes ao viver e provavelmente sabia que, para um lutador, a maior derrota que se pode sofrer é a derrota do si mesmo.

Enrijecer sem perder a ternura era talvez o seu maior desafio: lutar sem se perder, lutar sem se esvair, lutar sem enlutar-se da pessoa que ele sempre foi, evitando tornar-se aquele que perde sua espontaneidade e vive a vida apenas reagindo às interferências do mundo externo.

Este desafio, observando mais de perto e somado com uma pequena contribuição psicanalítica, não se confere apenas a Che Guevara, mas a todos que vivem e enfrentam cotidianamente o maior desafio do humano desde seu nascimento até a sua morte: continuar a ser aquilo que é (reside aí a ressonância da frase?).

Penso que era isso que Che Guevara queria dizer e hoje, todos nós também queremos:

Apesar do abandono, apesar da violência, apesar do abuso, do desrespeito, da insensibilidade, da corrupção, da injustiça, da perversão. Apesar dos amores rompidos e das paixões desencantadas e mesmo apesar de você,

lutarei para continuar a ser quem eu sou.