domingo, 23 de dezembro de 2012

A análise e as interpretações dos leigos



Nunca me considerei especial por analisar ou interpretar. Mesmo sendo psicólogo, tal idéia nunca me passou pela cabeça. Talvez porque penso que analisar e interpretar são comportamentos demasiado humanos, portanto demasiado democráticos para serem especiais.

Não raro, sou colocado numa situação de maior credibilidade por ser psicólogo. Minhas análises ou interpretações são consideradas mais válidas que as de outras pessoas, as chamadas leigas, por elas mesmas.

Mas sabe de uma coisa? Eu sempre considerei o leigo especial de fato. Ele analisa e interpreta porque sabe que esta é a sua natureza, não sua profissão. Ele analisa e interpreta porque tal compreensão faz parte da sua necessidade.

Todo leigo analisa por necessidade, não por devoção. E quem sou eu para negar ou desqualificar tal coisa? Rechaçar necessidade é uma grande desumanidade!

Pois que analisem! Que interpretem! Que sejam psicólogos de suas próprias desrazões.

É por isso que costumo dizer aos leigos para se sentirem a vontade para analisar e interpretar. Que façam à sua vontade, porque sua vontade é fome de clareza, é fome de vida sob medida.

Por vezes, medida que nenhum psicólogo poderia oferecer.

O Cuidado


Não cuidamos daquilo que não nos sentimos responsáveis. Cuidamos porque sentimos que aquilo faz parte de nós, precisa de  nós, depende de nós para continuar existindo.

Cuidamos não só do que amamos. Às vezes, cuidamos daquilo que odiamos, porque o cuidar não pressupõe amor, o cuidar pressupõe responsabilidade. Pressupõe maturidade para saber que a minha parte conta (e muito) para a manutenção, a existência ou a extinção aquilo que será cuidado.

Sim, porque ás vezes cuidamos de extinguir. Cuidamos de destruir.

Construindo ou destruindo, amando ou odiando, só cuida quem conhece seu potencial, quem se reconhece.

Cuidamos do que podemos. Cuidado não tem nada a ver com querer. Cuidado não é desejo. Cuidado é condição. E por isso, não cuidamos de alguém ou de algo que queremos. Cuidamos daquilo que podemos, daquilo que um dia, mais cedo ou mais tarde, também cuidará de nós.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Anteriormente eu já havia escrito uma consideração sobre o  cuidar e o cuidado no Espaço Potencial.

Acho que chegou a hora de desenvolver melhor esse assunto.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

sábado, 22 de setembro de 2012

O menino e o mar


É de pequeno que se descobre a imensidão do mar, da mesma maneira que é de pequeno que se descobre que é por meio desta imensidão que ele deve ser respeitado. Quase todo mundo conhece o prazer de se lançar em nados mais profundos e distantes, descobrir coisas novas e deixar, por alguns momentos, que a correnteza cumpra seu papel de nos mostrar que nem tudo está sob o nosso domínio.

Para alguns isso é excitante e para outros um grande motivo de terror. É uma questão singular: o mar é uma das primeiras experiências de imensidão que temos, e fico me perguntando se é a partir da relação com ele que decidimos como iremos nadar ou navegar no percurso de nossas vidas.

Um montante de água em movimento, cobrindo um mundo de cores, espécies diversas e uma porção de coisas afundadas (qualquer alusão à vida uterina pode ser incluída aqui).

O que faremos? Pegaremos uma bóia que nos mantenha seguramente no ambiente que já conhecemos? Construiremos um barco e nos manteremos no horizonte? Pegaremos uma prancha e nos emocionaremos com a beleza das superfícies? Um equipamento de mergulho para ver o que a natureza faz questão de esconder? Ou ir nadando mesmo sem nenhum instrumento?

Não sei dizer, mas estes questionamentos me fazem lembrar a história de um menino que não podia ver o mar que já se lançava à ele, sem bóias nem limites. Por vezes sua mãe tinha que mandar algum morador da praia ir buscá-lo no fundo e logo que retornava à areia, o menino já planejava seus próximos lançamentos rumo à imensidão.

Esta situação se repetiu, na vida adulta do menino, que não hesitava em lançar-se em novas experiências, muitas vezes sem proteção alguma. Talvez ele achasse que assim estava atingindo algo relacionado a liberdade, mas as feridas deixadas pelos mergulhos imprudentes o faziam lembrar que por mais que tentasse, a imensidão do mar era implacável, e que liberdade não necessariamente produzia feridas.

Ele não podia ser o mar, não poderia desafiá-lo desta maneira, senão morreria.
Decidiu ser outra coisa, continuar um menino, talvez!
Que utiliza da imensidão do mar para escrever sobre limite.

Limite é vida.

Obs.: Não se preocupem com o menino do exemplo. Apesar de ele ainda se arriscar em águas profundas, hoje ele aprendeu que ficar no raso também pode ser um grande barato!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Com os pés no chão (continuação)

Admiro aqueles que conseguem manter os pés no chão e pensar fria e calculadamente sobre seus objetivos e meios para alcançá-lo. Pensar e agir de forma assertiva realmente pode nos poupar muitos problemas presentes e futuros.

Pensando bem, acho que essa assertividade também depende um pouco do chão onde estes pés se encontram, uma vez que a vida, em determinadas situações, nos exige postura e iniciativa voltadas para a racionalidade. No trabalho, na organização do lar, nos projetos futuros, procuramos caminhar sobre o terreno da razão.

Certamente, razão e realidade são admiráveis... sobretudo quando elas estão em seu devido lugar, pois confesso que na minha opinião, diferentes terrenos exigem diferentes passos.

Experimente estender estes exemplos de assertividade acima para os momentos de lazer, as relações amorosas e familiares, incluindo as brincadeiras com seu filho ou sobrinho ou com a sua sobrinha. Em que terreno nossos pés estariam pisando?

Se o seu namorado ou namorada lhe perguntar sobre possibilidade eterna de seu amor, o que você responderia? Se a sua pequena sobrinha lhe perguntasse sobre a possibilidade de voar, o que você responderia?

Se os seus pés estiverem enterrados no chão, acredito que irá responder que não, ou não sabe, pois a eternidade não existe e seu amor, como tudo na sua vida, desconhece as circunstâncias do amanhã. Depois disso irá virar para sua sobrinha e dizer a ela que não adianta tentar: pessoas não voam, a não ser por meio de veículos construídos para este fim.

Triste realidade quando nela não há lugar para a ilusão!

Pois no contrário, mesmo com os pés no chão você poderia dizer ao seu namorado ou sua namorada que sim, mesmo que este sim dure apenas o segundo de sua resposta (eternidade também é sinônimo de intensidade), ao passo que pegaria sua sobrinha e a elevaria ao alto, fazendo-a voar e lembrar que a lei da gravidade é coisa de adulto.

Como um pouco de ilusão também deveria ser, afinal, não faz bem para ninguém ser sensato o tempo todo.

Especialmente não para mim... e para os meus pés.

terça-feira, 24 de julho de 2012

União em Defesa das Vítimas de Violência

A partir de hoje o Espaço Potencial apoia a "União em Defesa das Vítimas de Violência", organizada pela deputada federal Keiko Ota juntamente com representantes da sociedade civil empenhados em favorecer às vítimas o acesso à Justiça.

O UDVV é um movimento que tem como objetivo dar visibilidade e voz ás vítimas de violência, oferecendo apoio e atuando a favor da reforma do Código Penal Brasileiro.

Acesse o link no "Espaço Potencial Apoia" e conheça este importante trabalho.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Com os pés no chão

Manter os pés no chão não significa mante-los enterrados nele.

Até que ponto a busca da verdade nos afasta ou nos aproxima daquilo que chamamos de "realidade"?

(continua)

terça-feira, 17 de julho de 2012

As Janelas da América


Por motivos especiais (e um tanto confidenciais) O Espaço Potencial utiliza fotos de vitrais como pano de fundo.

"America Windows" de Marc Chagall (1887-1985), é o mais novo vitral escolhido para o blog.

"O resultado de seis painéis celebra um país que abriga a liberdade de cultura e religião, ilustrando artes como musica, pintura, literatura, teatro e dança." (Art Institvte of Chicago). A diversidade em forma de arte!

Conheça um pouco mais sobre as "Janelas da América".

http://youtu.be/Bz2mioCp-M0

sexta-feira, 13 de julho de 2012


O Espaço Potencial é um blog de participação pública que privilegia a liberdade de expressão e pensamento, tendo a alteridade e os direitos humanos como norteadores fundamentais. Anteriormente batizado de "Insight" (2006-2008), o Espaço Potencial foi criado em 31 de março de 2010 com o objetivo de ser um espaço de reflexão e produção por meio de crônicas que abordam os mais variados assuntos. As críticas, sugestões e colaboração dos leitores e demais interessados na elaboração de idéias e construção de textos encontram no Espaço Potencial valor ético, o qual é colocado em movimento a cada participação.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

"Te odeio...tranquilamente"


Ontem, durante uma conversa sobre animosidades nas amizades, fiquei pensando sobre o lugar do ódio nas relações interpessoais. Não no ódio como sentimento integrante destas relações, mas sobre a ambivalência que estas podem ou não sustentar, sobretudo quando podemos afirmar algo como: “gosto de determinada pessoa, mas também a odeio de vez em quando”.

A ambivalência certamente é uma conquista do amadurecimento. Ela é bem diferente da ambigüidade, uma vez que esta última não delimita com clareza as coisas. Quando falamos de ambivalência, falamos de sentimentos claramente opostos, mas que estão integrados em si.

Somada a confiabilidade, a ambivalência de sentimentos nas relações interpessoais ganha uma característica importante: uma espécie de licença para odiar: licença dada por nós a nós mesmos, uma espécie de ódio que não nos consome por dentro porque sabemos que ele não fará mal a ninguém. Ele vai passar e quem sabe voltar, mas sem destruir. Este é o diferencial das relações ambivalentes.

O que nos faz grandes amigos e grandes amantes não é somente a possibilidade que temos de amar intensamente as pessoas, mas a possibilidade de odiá-las, só que com tranqüilidade.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A beleza


Em colaboração com os “viajantes”: 

Aline Gasparotto
Eduardo Carrasco
Eduardo Costa
Luciano Lucci

A beleza não está nos olhos de quem a vê, nem no coração que a consome. Não está no sorriso incontido de uma criança nem mesmo no mais intenso amor que pode existir entre os homens e as mulheres. Não está nos dias azuis ensolarados nem mesmo nos entardeceres alaranjados.

A beleza não está nas curvas definidas dos corpos nem na simetria matemática das faces, nas roupagens elegantes e refinadas e nos sapatos de brilho cintilante.

Não está na música, no toque delicado do pianista.

Não está naqueles que a desprezam (estes são os que mais a temem).
Nem mesmo naqueles que assumem. Beleza assumida é beleza perdida.

Mas se me perguntassem então onde ela está, eu diria que ela está num espaço intermediário:

Onde os olhos e o coração se encontram,
O sorriso e o amor se complementam,
As manhãs e os entardeceres se reconhecem,
Ao passo do pianista, que afina seu toque,
Ao mesmo tempo,
Sem exclusões.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Tive que suspender a publicação dos textos por estar em processo de fechamento de semestre do mestrado. Este processo combinou-se ainda com o aumento de tarefas no meu local de trabalho e com uma persistente amigdalite que não me deixou mais trabalhar.

Mas em breve estarei melhor e pronto para voltar.

Abraço!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A beleza


A beleza,

Fútil e ao mesmo tempo necessária.
Subjetiva e ao mesmo tempo objetiva.
Natural e ao mesmo tempo tomada de artifícios.
Que ás vezes a aproxima do seu contrário.

(continua)

domingo, 29 de abril de 2012

Sobreviventes


Havia feito aquela pergunta da postagem anterior após assistir um documentário de uma querida psicanalista chamada Miriam Chnaiderman, chamado “Sobreviventes”. Nele, uma porção de pessoas que experimentaram uma situação limite falam sobre como alternaram seus lugares, de vitimas para sobreviventes.

É um documentário tocante, não apenas pelos relatos de cada pessoa, mas pelo cuidado da diretora para com a ambientação destas, as quais se encontram sentadas numa poltrona, dentro de um túnel onde ao fundo se emana uma luz. As participantes não estão próximas da escuridão do início do túnel, nem próximas da luz no fim dele: se encontram no devir, no entremeio destes dois extremos.

É essa a idéia que fica para o espectador: uma pessoa que sofre uma situação limite de violência, de desconsideração, de discriminação nunca mais volta a ser a mesma pessoa. Ela, na melhor das hipóteses, sobrevive neste entremeio, sobretudo quando consegue descrever sua experiência, um pouco aliviada pode deixar a escuridão do desespero inicial, e desejosa por atingir a iluminação total de seus porquês (Por que comigo? Por que assim?).

Iluminação que talvez nunca poderá ser alcançada de maneira plena.
Mas que já indica o caminho da transformação e do que já foi transformado.
Sobreviventes são iluminados.

P.s: vale a pena assistir um trecho do documentário no Youtube:

domingo, 18 de março de 2012

Que seja eterno enquanto dure

E se não durar, significa que não valeu?

E se constatarmos que os relacionamentos que estabelecemos com as coisas e as pessoas que nos cercam podem ser tão frágeis e finitos quanto nossos ideais para com elas?

Para alguns, características como fragilidade e finitude dos objetos e relacionamentos são aquelas que legitimam a desvalorização dos mesmos. Para outros, são exatamente estas características que fazem daquele relacionamento ou daquele objeto algo de valor inestimável.

Talvez os primeiros não gostem de receber flores, porque sabem que elas irão murchar. Os segundos, por sua vez, gostem de recebê-las, mesmo sabendo sobre o destino fatal de sua beleza.

Estes, talvez, sabem que nenhuma perda é absoluta.

E também sabem onde fica o próximo jardim.

quinta-feira, 15 de março de 2012

"Que seja eterno enquanto dure"

E se não durar, significa que não valeu?

E se constatarmos que os relacionamentos que estabelecemos com as coisas e as pessoas que nos cercam podem ser tão frágeis e finitos quanto nossos ideais para com elas?

(continua)

domingo, 4 de março de 2012

Adele e a arte de chorar

“Se ontem o tabu da sociedade era a liberdade e o sexo, hoje o tabu é a morte”.

Uma das muitas qualidades admiráveis dos artistas é a capacidade que eles tem de expressar opiniões e sentimentos muitas vezes difíceis de expressar. Os artistas dão contorno ao inominável, não apenas por meio de um novo nome, mas por meio de um novo sentido.

Foi por meio da arte, por exemplo, que Caetano Veloso cantou a liberdade em tempos de ditadura, bem como também foi por meio da arte que Madonna cantou a crítica a hegemonia católica e posteriormente cantou o sexo. Sim, estou afirmando cantou o sexo e não cantou sobre o sexo porque o artista não canta sobre um objeto, ele canta, pinta, dança e toca o próprio objeto.

Hoje vemos alguns artistas, especialmente cantores, tentando trilhar os caminhos de seus antecessores, e que mesmo assim não conseguem atingir o brilhantismo dos mesmos. Desconfio que o motivo não se concentra no erro em seguir a receita do outro, mas no erro em acreditar que o tempo de hoje é o mesmo de aquele que passou.

Por mais único e especial que seja o talento de um artista, seu sucesso não será possível e nunca poderá ser entendido como desenlaçado de um momento histórico no qual ele advém.

Não precisamos mais de Caetano Veloso para nos libertarmos (apesar de não sabermos o que fazer com a liberdade que conquistamos), nem de Madonna para buscarmos ou não religiões que nos fazem mais sentido ou para atingirmos maior realização pessoal e sexual. Hoje tudo isso não precisa ser cantado.

Mas e quando a questão refere-se à perda? Ou mesmo à morte e o chorar? Se estivermos certos que o tabu dos dias de hoje é a morte (como na frase que abre este texto), precisamos de alguém ou algo para nos aproximarmos dele, e por este caminho que compreendo a evidência de Adele.

Adele não se tornou uma cantora de sucesso apenas pela qualidade de sua voz, mas possivelmente por cantar num momento onde a depressão se sobressai diante do fracasso dos ideais narcísicos. Este fracasso se concretiza nas suas letras melancólicas e até em seu corpo, deliberadamente.

Diferente de outros artistas, Adele canta a morte dos relacionamentos, a finitude do amor derrotado, e todos que a admiramos talvez precisemos de sua ajuda, seja para chorar, seja para constatar que apesar do que aconteceu, ficar triste não é feio.

E alguém já viu e ouviu uma pessoa chorar de forma tão bonita como ela?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Homossexualidade: família e homofobia (parte final)

“A homossexualidade possui raízes: na família que a deserda e na sociedade que a destitui”.

Por volta do ano 2000, ou até mesmo antes, não me lembro ao certo, o governo federal produziu e veiculou uma propaganda muito interessante: nela, um garoto batia a porta de uma casa. Um homem mais velho abria a porta e dizia: “Ele não quer mais ficar com você, vá embora”. O garoto então ia embora, e o homem, após fechar a porta, olhava para o filho, o qual se encontrava abraçado com sua mãe e junto de sua irmã, dizendo: “ele não vai mais fazer mal a você”.

Foi uma das primeiras campanhas públicas a favor da visibilidade do homossexual no Brasil e, em minha opinião, a campanha mais moderna e eficaz que já foi feita até o momento para este público.

Diferentemente do estabelecimento da relação violenta e desencontrada entre heterossexualidade e homossexualidade no cotidiano e nas campanhas atuais, o conflito ilustrado naquela se desenvolvia dentro de uma relação homossexual entre dois garotos, legitimando, por meio de um conflito dramático, a existência do amor entre duas pessoas do mesmo sexo.

Além deste diferencial na campanha, havia outro igualmente importante: a presença da família, acolhendo o irmão/filho homossexual e intervindo diante do conflito amoroso do garoto, numa postura de cuidado para com aquele que é diferente e ao mesmo tempo parte de um contexto familiar.

Esta é a potência que família teria para oferecer para o homossexual: ela poderia ajudar a transformar “o estranho”, familiar.

Porém, aparentemente e infelizmente, a trajetória das questões homossexuais na atualidade parece ter tomado um rumo um tanto antagônico quando comparado aquele descrito acima, sendo a família, aos poucos, distanciada de tudo aquilo que se refere à homossexualidade e seu lugar, familiar e social.

Seria o grande discurso homossexual de exaltação da diferença (“eu sou gay, sou diferente de você”) que o levou a sua desfamiliarização? Não tenho muitas hipóteses para descrever o que levou a este distanciamento, mas posso dizer que ele contribuiu para a maior sacralização da instituição familiar e a degeneração da homossexualidade, sendo a segunda a grande ameaça da primeira.

A homossexualidade, em maior ou menor grau, tornou-se a herança maldita da instituição familiar, capaz extinguir suas gerações, perverter suas crianças e destruir seus laços sanguíneos, por vezes vistos equivocadamente como os grandes responsáveis pela transmissão dos valores familiares.

É nesta relação esgarçada que a violência contra o homossexual encontrou um terreno fértil para a proliferação de suas suposições anti-naturais da homossexualidade, agora desfamiliarizada e carente de referências que a humanizem.

Quero ressaltar aqui que preferi utilizar a descrição “violência contra o homossexual” ao utilizar “homofobia”, e vou justificar minha escolha porque acredito que a adoção deste conceito veio a contribuir ainda mais com a violência que já ocorria contra o homossexual.

Quando do homicídio de Edson Néris da Silva (espancado até a morte ao ser visto junto de seu companheiro numa praça da região central de São Paulo), também por volta do ano 2000, o conceito de homofobia não era muito conhecido. Naquela época, este episódio recebeu o nome de crime de intolerância, ou mesmo crime de ódio, algo que envolve uma caracterização jurídico-penal, portanto criminal do fato.

Aos poucos, e com o aumento da incidência deste crime, esta caracterização jurídica deu lugar a uma caracterização psicológica, recebendo o nome de homo/fobia, que quer dizer “aversão, medo ou repulsa de homossexuais”.

Assim, a qualificação do crime, que anteriormente recaia sobre o fato, recaiu sobre a pessoa que o pratica, a qual, como o homossexual, também recebeu um rótulo psicológico.

Homofóbico seria o heterossexual, ou seria então o negativo do homossexual, um homossexual subdesenvolvido, temeroso, medroso, covarde diante à imponência de uma homossexualidade exposta e vanguardista.

Lembro, obviamente, que condeno a violência contra homossexuais, como também condeno a estigmatização das pessoas, independentemente de suas orientações sexuais, e é por isso que condeno também o uso do conceito de homofobia: ao rotular, ele sustenta o ciclo de violência, convidando à rivalidade e verticalização das sexualidades. Homofobia não é um crime, é um diagnóstico pretenso.

Não importa se a pessoa que agride o homossexual sente repulsa, medo, asco, desaprovação ou possui desejos reativos e reprimidos, o que importa é que o crime que ele pratica deve ser penalizado criminalmente.

Ouso até a dizer que ele também, como o homossexual, deva ser familiarizado, pois acredito que é pelo caminho da familiaridade que é possível encontrar um futuro mais humano e cidadão para todos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Homossexualidade: estigma, amor e sexo (parte 2)

Penso que o primeiro problema quando se fala sobre homossexualidade é a sua rotulação, que antecede até a estigmatização, como tentarei explicar a seguir.

Homossexual é uma pessoa, homem ou mulher, que apresenta preferência sexual por alguém do mesmo sexo. Se esta rotulação terminasse com aquele ponto final após o “sexo”, não haveria muito que discutir sobre o assunto.

Porém sabemos que não é assim. A preferência sexual por alguém do mesmo sexo traz consigo questionamentos das mais variadas ordens, sobretudo ligadas ao determinismo biológico e religioso que sustenta a idéia “do homem para a mulher e a mulher para o homem”.

Nesta lógica, as demais variações da preferência sexual então parecem ser colocadas no estigma perverso que o homossexual recebe e o qual pode fazê-lo sofrer: é aquele adepto do sexo anal e sua nomeação social de homossexual refere-se aquilo que ele faz no privado. Imaginou como deve ser para alguns homossexuais lidarem com isso? Serem conhecidos publicamente por aquilo que eles fazem no privado? (por este motivo o armário ás vezes é um lugar muito mais confortável que o mundo externo, pois é o único refúgio desta privacidade).

Penso que este é o grande diferencial quando se trata da homossexualidade. Tanto sua rotulação quanto sua estigmatização estão baseadas na sexualidade, e sobre isso cabe uma informação importante:

Não é preciso estudar para saber que quando o tema é sexualidade a discussão não cabe em racionalismo matemático de “a” é para “b” e “c” + “d” = “e” (ou cd!). A sexualidade está sempre além ou aquém do ser humano, é dinâmica e, acredite, não é algo a ser resolvido. Sexualidade resolvida, em minha opinião, é sexualidade morta.

Quando consideramos a sexualidade de forma dinâmica e não estática, estamos concebendo-a não de forma certa ou errada, mas sim da forma como ela se apresenta, tanto para homossexuais, quanto para bissexuais e heterossexuais.

É entendendo a sexualidade nesta perspectiva que podemos caminhar para a humanização da homossexualidade, pois, percebemos que a prática do sexo anal não é exclusividade do sexo homossexual e até hoje não se tem notícia de nenhuma pessoa, homo, bi ou heterossexual que faz uso de sua boca com finalidades exclusivamente alimentares.

Retomando agora ao problema da estigmatização, seríamos muito ingênuos ou mesmo desinformados se acreditarmos que isso nada interfere na maneira pela qual o homossexual se relaciona com as outras pessoas.

O não reconhecimento da união civil homossexual e sua não integração na cultura favoreceu, ao longo de anos, o surgimento de guetos onde, por falta de ambiente seguro para a construção das relações, a busca de prazer é tarefa principal. Sendo assim, as relações amorosas e românticas, que demandam este tipo de ambiente, deram lugar a busca pelo sexo em sentido restrito.

Isto é algo que muitas pessoas vivenciam, e que os homossexuais, em especial, sabem: na clandestinidade, as relações amorosas tendem a sucumbir.

Porém muita coisa mudou ultimamente: o aumento da visibilidade para este público ajudou os homossexuais a encontrarem formas mais variadas de vivenciarem a sua sexualidade, deixando de incorporar o clichê da alegria maníaca e maçante diante do outro.

Em contrapartida, o aumento da visibilidade veio combinado com o aumento da violência contra o homossexual, o qual, ao meu ver, cedeu ao discurso da sexualidade “matemática” e reivindicou na biologização, o seu lugar na sociedade ao afirmar que “nasceu assim”.

Se ele "nasceu assim", resta lugar para a responsabilidade da família e do Estado?

(continua)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Homossexualidade: uma breve contextualização (parte 1)

Este texto se divide em três partes: a primeira descreverá uma breve contextualização como introdução do tema. A segunda tratará de descrever os efeitos da estigmatização do homossexual em sua relação afetiva e sexual. Por fim, a terceira abordará uma visão crítica sobre a homofobia (sugestão de Nilton Carlos) e as políticas públicas voltadas para o público homossexual.

Se concordarem comigo que o percurso de qualquer pessoa rumo à construção de sua identidade e lugar social é complexo e desafiador, certamente concordarão que o mesmo percurso, para um homossexual, ganha particularidades ainda mais custosas.

Primeiramente, porque vivemos no Brasil, país da sensualidade feminina fincada nas curvas dos litorais, refletida na música, nas produções artísticas e até nas definições arquitetônicas de sua própria capital. A mesma inspiração se evidencia na publicidade, a qual exibe o corpo da mulher em associação aos demais produtos de consumo: cerveja, protetor solar, chuveiro, toalhas de banho são os exemplos mais explícitos. Por outro lado, tal artifício é aplicado, dissimuladamente até, em comerciais de massageadores fisioterápicos e óculos de sol (veja só!).

Tais características descrevem a sensualidade do corpo da mulher como o principal produto de exportação e exploração do país (que ainda não aprendeu a crescer sem explorar o que lhe é e não é alheio).

Em segundo lugar, em detrimento ao primeiro, verifica-se certa degradação na publicização do corpo do homem, o qual, em comparação ao da mulher, invariavelmente aparece fora dos padrões de beleza. Também na publicidade, a exposição do corpo do homem sofre uma espécie de ridicularização, caracterizadas ora pela limitação instintiva de seus desejos, ora por comportamentos pueris, até mesmo para a mais inocente criança (em propagandas de cerveja vemos o melhor dos exemplos).

Porém, diferentemente do que ocorre na publicidade, é nas novelas que os corpos masculinos se exibem de forma a estarem mais adequados ao desejo de consumo, sobretudo das mulheres, principal público visado por tal atração.

O corpo da mulher é aquele que mais se evidencia, não apenas por sua beleza, mas pelo seu potencial de uso e de abuso inserido numa sociedade patriarcal, que desde cedo estabelece quem é o consumidor (homem) e quem é o consumido (mulher).

Em terceiro lugar, porque verifica-se também, nas instituições de ensino, a transmissão de conhecimentos que favorecem, sobretudo por meio das disciplinas de biologia e literatura, a noção restringida da natureza humana (apenas com finalidades reprodutivas) e sua aplicação nos poemas, contos e peças de teatro (Romeu e Julieta, Dom Casmurro, entre outros) que celebram não apenas a criatividade, mas o romantismo como algo exclusivo da cultura heterossexual.

Por fim, em quarto lugar, não há como negar as intenções normativas e violentas herdadas da ditadura militar e em funcionamento até então, ás vezes combinadas com alguns ideais religiosos, onde juntos sustentam que a condição de ser diferente justifica que este seja digno de morrer, ou de se fazer calar.

Muitas outras particularidades poderiam ser somadas àquelas descritas acima (inclusive a já famigerada história da categorização e patologização das sexualidades pelas disciplinas quem compõem a área da saúde), mas penso que estas quatro já podem nos oferecer uma pequena noção acerca do recorte social no qual o homossexual é “inserido”.

Se compreendemos a construção da identidade e do lugar social de uma pessoa como produto de interações com outras pessoas e referências sociais, a ausência destas para o homossexual o sujeita para um lugar da ordem da anormalidade, num mecanismo que sustenta, transgeracionalmente, a bestialização e estigmatização da homossexualidade.

Quais as conseqüências destas particularidades nas experiências afetivas e sexuais e qual o peso do estigma (também lê-se preconceito) no cotidiano do homossexual?

(continua)

domingo, 8 de janeiro de 2012

Are you really born this way?

Aconteceu algo bastante curioso agora: ao decidir escrever sobre homossexualidade, diferentemente da forma pela qual escrevi os demais textos do Espaço Potencial, me deparei levantando todo um arsenal teórico e científico de estudo para encontrar referências sobre o assunto. Por que será que isso aconteceu justamente com este tema? (risos).

Ah, acho que sei o porquê: o problema é a referência. Seria esta uma das maiores pedras no sapato de qualquer homossexual? Encontrar referências, para viver, conviver, para amar e para ser?

Enfim, nas próximas semanas o tema da homossexualidade será abordado no Espaço Potencial e você será muito bem vindo para refletir e discutir sobre sexo, romantismo, estigmatização e homofobia, além de uma das mais importantes questões deste tema na atualidade: are you really born this way?

Nascendo ou não nascendo assim, quais seriam os efeitos da noção de homossexualidade congênita para a consolidação de uma política pública?

Até lá.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Hay que endurecerse sin perderse

Há algumas semanas escrevi no Facebook uma frase que teve certa ressonância. Não me lembro exatamente como eu a escrevi, mas era algo assim:

“Conheço muitas pessoas que se orgulham de ter enrijecido ao longo da vida. Eu me orgulho exatamente pelo contrário: amargar é fácil. O difícil é perder a ternura”.

Um amigo associou esta frase a uma frase de Che Guevara, que dizia: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. A associação foi inevitável, uma vez que as frases são bastante similares, mas penso que elas não são iguais, sobretudo porque eu não estava me referindo à necessidade de endurecerse. Muito pelo contrário, era essa mesma necessidade que eu havia julgado como fácil.

De qualquer forma, esta discussão não é importante. O que quero escrever aqui não se concentra na diferença das sentenças, mas sim no sentido que elas tem e na ressonância que elas encontram em seus leitores.

Não sou nenhum profundo conhecedor da história de Che Guevara, mas sei que ele foi um homem de vida política voltada para a luta contra a alienação e a injustiça social. Foi um homem acostumado às tempestades inerentes ao viver e provavelmente sabia que, para um lutador, a maior derrota que se pode sofrer é a derrota do si mesmo.

Enrijecer sem perder a ternura era talvez o seu maior desafio: lutar sem se perder, lutar sem se esvair, lutar sem enlutar-se da pessoa que ele sempre foi, evitando tornar-se aquele que perde sua espontaneidade e vive a vida apenas reagindo às interferências do mundo externo.

Este desafio, observando mais de perto e somado com uma pequena contribuição psicanalítica, não se confere apenas a Che Guevara, mas a todos que vivem e enfrentam cotidianamente o maior desafio do humano desde seu nascimento até a sua morte: continuar a ser aquilo que é (reside aí a ressonância da frase?).

Penso que era isso que Che Guevara queria dizer e hoje, todos nós também queremos:

Apesar do abandono, apesar da violência, apesar do abuso, do desrespeito, da insensibilidade, da corrupção, da injustiça, da perversão. Apesar dos amores rompidos e das paixões desencantadas e mesmo apesar de você,

lutarei para continuar a ser quem eu sou.