domingo, 4 de dezembro de 2011

O psicanalista e a prostituta: um encontro de sujeitos

Aquela noite seria diferente.

Já acostumado a licenciar o espaço ao outro, permitindo com que este repousasse sobre seu divã e devaneasse, o psicanalista licenciou-se.

Cansado de favorecer relacionamentos mais humanos e democráticos, de facilitar a integração dos conflitos sob o domínio do self, ou dizendo de outra maneira, de favorecer a desalienação do sujeito junto ao seu lugar ocupado na sociedade e na singularidade, o psicanalista resolveu entregar-se às tentações das relações humano-consumistas.

Num salão escuro, sentado sob uma chaise forrada de um veludo vermelho incontido em chão e paredes, o psicanalista rebelou-se por acreditar que havia chegado a sua vez de sujeitar.

A prostituta, por sua vez, sentada no banco do bar espelhado, observava o psicanalista, cruzando suas pernas devidamente vestidas com meias longas de bordas emborrachadas, olhando reto por meios curvilíneos.

Ao se aproximar, oferece uma bebida e, passando suavemente suas mãos sob o peito do psicanalista, pergunta sobre o seu desejo.

“Quero alguém que me obedeça” disse ele.

Ela sorri, percebendo ali que a intervenção teve resultado. Agrada, acaricia e continua seu atendimento. O psicanalista não se contém: questiona sobre ela, sua origem, o que gosta, quem ela é? Começou, ali mesmo, a desnudá-la.

A prostituta envergonhou-se. Disse que gostava daquele trabalho, mas o fazia sobretudo para ajudar a alimentar os dois filhos que havia deixado aos cuidados de sua mãe numa cidade bem longe dali.

Surpreso, o psicanalista percebeu que cometeu um grave erro: ao desvestir a prostituta, vestiu sua escuta, abrindo caminho para uma trágica constatação: a prostituta havia se transformado em mulher.

Ele decidiu encerrar o encontro. Despediu-se e caminhou para casa, convencido de que psicanalistas são péssimos clientes.

Aquela noite seria diferente.

2 comentários:

  1. Bruno, simplesmente adorei seu texto!!!

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  2. Obrigado Robson, fico contente com isso. E pensar que quase não publicaria este texto...

    Vamos conversar sobre a proposta de escrevermos juntos um texto para o blog. Abraço.

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