sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal e Ano Novo: uma concepção

O momento do Natal e como os momentos que antecedem a virada de um novo ano possuem particularidades as quais associo a um período de gestação. Neles, os preparativos do presente e as expectativas para o futuro possuem a marca da inquietude: será que tudo vai dar certo? Será que vai ser bom? Será que conseguirei aquilo que quero? Serei feliz?

Até parece um pai e uma mãe esperando o filho que vai nascer: será parecido comigo? Será que vou conseguir? Será que ele vai nascer saudável?

Não sabemos e não temos como saber, afinal, estamos falando de humanidades, e no campo das humanidades, toda forma de garantia é uma grande piada.

Isto não significa que não há nada a ser feito. Como pais e mães que aguardam o tão esperado bebê, algumas pessoas, felizmente, inclinam-se por realizar preparativos para que este nascimento possa ocorrer da melhor forma possível. Alguns apelam para desejos mágicos endereçados a entidades alheias, enquanto outros enxergam em si as potencialidades de construção e re-construção de um novo momento.

Particularmente eu prefiro a segunda opção, por meio do seguinte argumento: localizar em si mesmo as potencialidades de construção e re-construção é uma forma de subverter a idéia de desejar o melhor para 2012: é desejar o melhor de si para 2012, para que você seja melhor para o ano que está vindo e não o contrário. Nesta subversão as possibilidades de conquistas são mais consistentes.

Mesmo assim, nada é garantido, e isso é o mais fascinante em minha opinião, pois com base no não garantido é que oferecemos um espaço para o desenvolvimento do ser humano, e de um novo ano, igualmente humano.

O Espaço Potencial de despede de 2011 por aqui, desejando a todos um feliz natal e um ano novo repleto de incertezas!


Dedico também este texto ao meu querido avô Eliseu Fedri (1914-2011), que me ensinou que o homem é o senhor de sua própria sorte.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O psicanalista e a prostituta: um encontro de sujeitos

Aquela noite seria diferente.

Já acostumado a licenciar o espaço ao outro, permitindo com que este repousasse sobre seu divã e devaneasse, o psicanalista licenciou-se.

Cansado de favorecer relacionamentos mais humanos e democráticos, de facilitar a integração dos conflitos sob o domínio do self, ou dizendo de outra maneira, de favorecer a desalienação do sujeito junto ao seu lugar ocupado na sociedade e na singularidade, o psicanalista resolveu entregar-se às tentações das relações humano-consumistas.

Num salão escuro, sentado sob uma chaise forrada de um veludo vermelho incontido em chão e paredes, o psicanalista rebelou-se por acreditar que havia chegado a sua vez de sujeitar.

A prostituta, por sua vez, sentada no banco do bar espelhado, observava o psicanalista, cruzando suas pernas devidamente vestidas com meias longas de bordas emborrachadas, olhando reto por meios curvilíneos.

Ao se aproximar, oferece uma bebida e, passando suavemente suas mãos sob o peito do psicanalista, pergunta sobre o seu desejo.

“Quero alguém que me obedeça” disse ele.

Ela sorri, percebendo ali que a intervenção teve resultado. Agrada, acaricia e continua seu atendimento. O psicanalista não se contém: questiona sobre ela, sua origem, o que gosta, quem ela é? Começou, ali mesmo, a desnudá-la.

A prostituta envergonhou-se. Disse que gostava daquele trabalho, mas o fazia sobretudo para ajudar a alimentar os dois filhos que havia deixado aos cuidados de sua mãe numa cidade bem longe dali.

Surpreso, o psicanalista percebeu que cometeu um grave erro: ao desvestir a prostituta, vestiu sua escuta, abrindo caminho para uma trágica constatação: a prostituta havia se transformado em mulher.

Ele decidiu encerrar o encontro. Despediu-se e caminhou para casa, convencido de que psicanalistas são péssimos clientes.

Aquela noite seria diferente.