domingo, 6 de novembro de 2011

O anoitecer no mundo cor de rosa

A vida parecia caminhar contínua e sem excepcionais sobressaltos. A despeito de tantos acontecimentos estarrecedores à sua volta, você e tudo o mais que lhe pertence pareciam conservados (as) de forma a manter inabaláveis suas opiniões e posicionamentos frente aquele mundo que você conhecida.

Havia uma correspondência sensível entre os personagens deste universo, fato o qual sustentava a crença de que todas estas pessoas aparentemente compartilhavam de seus ideais e deles se referiam com insossa anuência.

As outras pessoas, quando percebidas, o eram não tão diferentes de você, assim como o rumo do dia, que corria convenientemente ao compasso de seu próprio relógio, talvez o único, por assim dizer. Não havia lugar para o estranho, tudo era familiar.

Toda esta atmosfera compreendia a idéia de uma coletividade, absoluta e livre de qualquer parcialidade. O amor era incondicional, de esperanças simétricas, regendo um mundo único, puro, de uma só cor, cor de rosa.

Mas como um trauma, surpreendente e desmedido, todo este mundo rosa turvou diante de um acontecimento que insistiu em dar lugar ao estranho, apresentando a finitude dos amores e as dimensões reais dos conflitos, que agora parecem mover o novo cotidiano, apresentando depressões, desconfianças e desesperanças.

Como conseqüência, surge a melancolia (o que inclui a auto-depreciação), trazendo questões sobre sua dificuldade de enxergar, sua inocência e sua impotência diante de um mundo que mudou e que agora parece independer.

Existe uma possibilidade de sentir-se sozinho (a), mas este sentimento logo se dissipa diante da constatação que outras pessoas também já viveram naquele mesmo mundo, e hoje choram por não mais sentir sua infantil e maternalidade.

“Tome cuidado! Não se entregue demais! Ele (a) não presta, não vale a pena. Aquilo não merecia você. Da próxima vez fique esperto (a), não espere dos outros o que você faz por eles, este lugar não presta”.

Alguns enrijecem, descobrem que o mundo não é rosa e tentam pintá-lo de outra maneira (menos de rosa). Outros viajam, para o fundo ou para longe, para nunca mais voltar.

Pode haver uma leve desconfiança que o mundo cor de rosa na verdade era um ranço do mundo infantil do qual todos nós somos oriundos. Todos nós choramos, cada um a sua maneira, nesta despedida, constatando a partir de então que o mundo parece ter sido sempre diferente.

O que era rosa não era o mundo todo, mas uma postura frente a ele, postura a qual, invariavelmente sofre alterações diante de uma desilusão: numa espécie de atentado ao nosso narcisismo, o mundo colorido é sempre descoberto com pesar.

Pesar que pode se tornar crônico para quem insiste em não viver a vida a cores, incluindo, sobretudo, aquela tal cor que tanto faz lembrar do lugar onde tudo começou.

2 comentários:

  1. Muito bom texto... e tem haver com o momento que estou vivendo, apesar de nunca ter achado o mundo completamente cor de rosa em nenhum instante!
    Leo Trassi

    ResponderExcluir
  2. Olá Léo. Talvez tenhamos vivido num mundo cor de rosa num momento tão primitivo de nossas vidas que nem temos como dar uma cor a ele! Quanto mais cor de rosa!
    Mas neste texto falei sobre a ferida narcísica, um conceito técnico do meio psicanalítico, e esta ferida reincide em nossas vidas, penso que em momentos onde o mundo era cor de rosa e deixou de ser.

    ResponderExcluir