segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Violência e Desrespeito – Verso e Reverso

Trabalho no atendimento às vítimas de violência há oito anos. Além de escrever sobre o tema, minha atuação privilegia o encontro com a vítima e o oferecimento de um ambiente que favoreça a sua escuta e o seu acolhimento. Além desta atividade, também tenho a oportunidade de visitar escolas da rede pública de ensino para falar sobre violência para o público adolescente.

Nestas visitas, me proponho a provocar os alunos questionando-os o que eles entendem por violência. A resposta é quase instantânea: violência é bater em alguém, machucar alguém e fazer algum mal a alguém. Ou seja, aparentemente o conceito de violência é aplicado à vida particular, às relações particulares daquele adolescente com outras pessoas.

Numa conversa com minha amiga (que sugeriu esta postagem), foi indicado que eu escrevesse sobre o desrespeito às vagas de estacionamento para pessoas com deficiência. Questionei se ela entendia isso como uma violência e ela me disse: “acho desrespeito”.

Mas então, o que é violência e o que é desrespeito? São as mesmas coisas? Por que alguns acontecimentos chamamos de violência e outros chamamos de desrespeito?

Desrespeito significa não acatar as regras e as normas, não obedecer à ordem, desconsiderar uma lei e não tem como conseqüência direta desconsiderar uma pessoa. Já o conceito de violência parece ser aplicado de forma diferente.

Costumo dizer que violência é um conceito vivo. Se Foucault dizia que a palavra é a morte da coisa, eu diria que violência é a própria coisa viva. Não é tarefa fácil descrever seu significado. Podemos concordar com os alunos que dizem que violência é agredir alguém, mas ela vai muito além: violência é miséria, corrupção, má administração pública.

Violência é a desconsideração do outro de forma direta, através de agressão física, psicológica, sexual e tantas outras faces que ela é capaz de apresentar para violar o direito e a integridade de pessoas e grupos. As vítimas de violência nunca se afirmam como desrespeitadas, elas se afirmam como violentadas mesmo.

Parece então que nos referimos à violência quando algo de danoso é aplicado a uma pessoa e desrespeito quando algo de danoso é aplicado a uma lei.

Mas, voltando ao exemplo da minha amiga: desrespeitar uma vaga exclusiva para idosos ou pessoas com deficiência é uma violência ou um desrespeito? O que está se desconsiderando? Ambos!?

Temos dificuldade em entender a violência como fenômeno social de conseqüências também sociais, e não apenas individual e particular. Talvez esta dificuldade nos esmoreça na construção de uma sociedade menos violenta.

Quanto a questão, penso que o importante aqui não é fechá-la, mas mantê-la no ar, online, tão viva quanto a violência que acreditamos estar tão distante de nós.

Por sugestão de Fernanda Rodrigues, desde já meus agradecimentos.

2 comentários:

  1. Muito bacana o post. parabéns.
    Lendo-o me lembrei do conceito de violência da Hannah Arendt, quando diz que a violência é a morte da palavra. Nesse sentido, o desrespeito, o descaso, a desconsideração, incidem de forma a aniquilar o valor que a palavra, enquanto intercambio com a alteridade, pode providenciar. Sob meu ponto de vista, todas as formas de aniquilação da alteridade é uma forma de violência, ainda que tenha seu estatuto psíquico.
    Vale-me a atual consideração sobre a união civil homoafetiva, que de uma forma de desconsideração legal, tornava-se possível as mais variadas formas de violência psicológica e até mesmo fisica, como podemos ver. Dessa forma, acho que a violência é uma condição de exposição, de desqualificação social (vida nua usando o conceito de Walter Benjamin) seja ela manifesta de forma física, psicológica, social (se é que é necessário, ou o que ganhamos ao separa-las?). A questão que se coloca é: por que será, ou de que forma, somos levados a encarar apenas a violência física como legítima? e naturalizar a corrupção, o desrespeito, o descaso....
    Penso: Pode-se fazer sanções a países sabendo que isso desencadeará a morte de crianças (por exemplo), mas bater uma criança, jamais. (esclareço que condeno ambas posições).

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  2. Essa questão que você traz me faz pensar no início dos estudos do fenômeno da violência doméstica no grande ABC, onde os médicos estavam mais atentos às marcas físicas da violência, do que suas circunstâncias psicológicas e sociais. É uma boa questão (sobre apenas violência física ser legítima), porque será que a violência geralmente é tratada e observada por uma leitura individual e concreta? Não sei como desenvolver o assunto no momento, mas tendo este fenômeno estreita ligação com o âmbito jurídico, fico aqui me questionando o quanto a violência é legítima apenas quando ganha o status de corporificação, de evidência em peça de processo. Fora daí, o que é possível condenar?

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