quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Morar num outro tempo

Havia um homem que dizia ter grande paixão por casas de estilo antigo, daquelas com muros baixos, cercado tímido e porta incontestavelmente convidativa.

Este homem sonhava em morar numa casa daquelas. Por ter o hábito de caminhar por longos períodos do dia a pé, tinha a possibilidade de perceber a cidade de maneira um tanto envolvente, podendo sentir desde a presença quente do sol em sua testa à irregularidade do asfalto sob o fino solado de seus sapatos.

Era caminhando que tinha chance de encontrar estes antigos casebres, e assim, se encantava com a aparência desavergonhada dos tijolos já rachados ladeando o pontiagudo e desordenado jardim de rosas, geralmente se localizando bem em frente à grande janela principal.

Num dia, este homem encontrou mais uma destas casas, e resolveu pausar seus tão apressados e sensíveis passos. Olhou para ela com muita ternura e desejo, deixando que seu modesto sonho lhe viesse em mente.

Ao acordar, impulsionado pela urgência apressada da realidade em que vivia, e ainda um tanto entorpecido, virou a cabeça para o lado e fitou de cima a baixo um longilíneo prédio residencial que, deve-se dizer de tão enorme, parecia confundi-lo quanto qual era o verdadeiro local de sua base.

Constatou que o prédio estava isolado, fechado, circundado por grades de ferro acompanhadas de cercas eletrificadas, com três portas de acesso de diferentes materiais e três homens alinhados militarmente, aparentando avistar uma ameaça que não aparecia, pelo menos naquele momento.

Sem pestanejar, o homem voltou novamente seu olhar para a casa, e, desta vez adotando seu indomável olhar analítico-comparativo, percebeu as diferentes arquiteturas, tomando o cuidado de deixar de lado a velha e conhecida dicotomia brasileira do pobre e do rico. Afinal, aquilo não tinha a ver unicamente com dinheiro. Não para ele.

Avaliou que o prédio era novo, pois fora erigido sob a marca do medo e da ameaça resultante da realidade violenta que vivia e que teimava em anular o outro, seja pelo isolamento, seja pela demonstração de grandeza como reação à possibilidade de aniquilamento.

Ao seu lado, estava a casa, arquitetada com a delicadeza de alguém que tinha o vizinho como parceiro, que somava e compartilhava. Aquele do tempo romântico onde o outro não era ameaçador, o outro era o paraíso.

O homem se surpreendeu, descobriu que seu sonho não era nem um pouco modesto.

Retomou seus passos, não desejando mais especificamente morar numa casinha.

Desejava agora morar num outro tempo, onde quer que este tempo possa residir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário