domingo, 7 de agosto de 2011

A Familia Selada

A família é a base da sociedade? O psicanalista D. W. Winnicott escreveu um livro cujo título condensa o seu conteúdo de tal maneira que quase dispensa sua leitura: “Tudo começa em casa”.

De uns tempos para cá é fácil encontrar estudos que descrevem a explosão da organização familiar chamada nuclear burguesa, ou seja: pai, mãe e filho (a). Na atualidade, novas formas de organização familiar são estabelecidas, incorporando diferentes valores: a alteridade, a sexualidade, a antropoformização dos animais domésticos (com especial atenção aos cachorros), entre outros.

A crescente descentralização da religião nas organizações sociais pode ser visto como um dos pontos que favoreceram a incorporação destes novos valores, mais criativos e menos normativos, ao meu ver.

Tais valores aparentam agora entrar em confronto com os valores da família nuclear. Percebe-se isso verificando os modismos dos selos da “família feliz” nos carros que vemos diariamente nas ruas.

É inevitável refletir sobre os modismos, até porque eles não se estabelecem sem publicação e assim, por serem socializados, acabam por nos provocar.

Mas qual o sentido de publicar, através de um selo (identidade) colado num carro (patrimônio particular de visibilidade pública), os integrantes de uma família?

Adoto a hipótese que, em tempos de abalos na estruturação familiar burguesa que já conhecemos, somado a emergência de novos grupos familiares e à reivindicação de direitos (e deveres) de grupos chamados minoritários, a colagem de um selo que represente a família “tradicional” é uma tentativa de mostrar para todos que apesar de tudo, a família burguesa ainda existe e tem o seu valor.

Parece um protesto silencioso e ao mesmo tempo gritante, padrão de funcionamento comum de uma família, que tem seus pactos de silenciamento e publicização, sobretudo quando ameaçadas.

É importante salientar que muitas vezes algumas doses de realidade são necessárias para que as coisas não se tornem patológicas, e penso que esta ameaça é fruto de uma fantasia excludente, que considera o OU desconsiderando o E, ou seja, desconsiderando a co-existência das diferenças e semelhanças.

Resta refletir se esta desconsideração também começa em casa.

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