sábado, 12 de março de 2011

Sobre a capacidade de estar só

Sinto-me inclinado, não por acaso, a escrever sobre um tema contraditório: a capacidade de estar só. Quando converso com amigos não raro ouço frases do tipo: “não gosto de almoçar sozinho, não gosto de ficar sozinho, solteiro sim, sozinho nunca, é impossível ser feliz sozinho".

São posicionamentos que compreendem a solidão como conseqüência de um fracasso pessoal bastante amargo. Estar só significa estar perdido, negado, condenado ao vazio, não apenas em silêncio, silenciado.

Mas em Psicanálise a condição de estar só aponta para algo antagônico daquele descrito acima: estar só significa evolução no amadurecimento pessoal, uma condição especial de consistência do self (sí mesmo) e conseqüentemente resistência ao desfalecimento. Algumas pessoas, no entanto, não descrevem a possibilidade de estar só associada ao fracasso e ao medo.

Então, como entender isso? De início gostaria de dizer que meu intuito não é instruir alguém a almoçar sozinho ou ser feliz sem ninguém por perto. Deixo isso para a cultura do individualismo que já vivenciamos e que dela não compartilho.

Mas quero dizer que entendo isso da seguinte maneira: para estar sozinho é necessário alguém por perto. Um paradoxo curioso! Conseguimos ficar sozinhos quando temos a capacidade de perceber que existem recursos que orbitam o lugar que ocupamos e que deles podemos fazer uso quando necessário.

Sem esta capacidade, ou seja, sem alguém por perto, não podemos ficar sozinhos e assim precisamos estar ligados a alguém a todo o momento, uma vez que a possibilidade de se perder no vazio é iminente.

Então não sei responder aqui se é possível ou não ser feliz sozinho, almoçar sozinho, viajar sozinho...mas me limito a afirmar que é possível ESTAR sozinho.

Como estou agora, com você.

2 comentários:

  1. Um pequeno comentário a esta sua questão que me chamou bastante atenção, pois como pode ESTAR sozinho, mas com o outro? Como pontuou na ultima frase.
    Desculpe a provocação, mas penso que a Psicanalise lacaniana ajuda a pensar nisso também, pois como convocar o outro sem ele ESTAR presente? Quando você pontua sobre as situações que as pessoas não gostam de ESTAR sozinho, penso na ideia do sofrimento, que condiz ao encontro de ESTAR em angústia. Mas ao mesmo momento que ESTAR em angustia é sofrido e leva o sujeito para a análise ou para outros tipos de laços, como procurar o medico, yoga, drogas, enfim, descobrimos que ate o sintoma ou sofrimento diz ao um ESTAR com ..., que remete a um alivio, pois a um outro. Então, digo que... Estive com você quando lia o texto, e eu estou agora sozinha e com você.
    Beijos, Telma.

    ResponderExcluir
  2. Ótimo post, estava lendo um artigo do Outeiral sobre a capacidade de estar só. Acho um tema muito interessante para se pensar a contemporaneidade, como quando você coloca as questões do sentimento de solidão/desintegração.
    De qualquer forma, sobre o paradoxo, acho que a questão não é a conquista ou não da felicidade sozinho, mas que a conquista da capacidade de estar só (na presença do outro) é uma conquista do sentimento de estar vivo. Acho que a Jaque quis dizer isso no comentário que fez no FB.

    ResponderExcluir