sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal e Ano Novo: uma concepção

O momento do Natal e como os momentos que antecedem a virada de um novo ano possuem particularidades as quais associo a um período de gestação. Neles, os preparativos do presente e as expectativas para o futuro possuem a marca da inquietude: será que tudo vai dar certo? Será que vai ser bom? Será que conseguirei aquilo que quero? Serei feliz?

Até parece um pai e uma mãe esperando o filho que vai nascer: será parecido comigo? Será que vou conseguir? Será que ele vai nascer saudável?

Não sabemos e não temos como saber, afinal, estamos falando de humanidades, e no campo das humanidades, toda forma de garantia é uma grande piada.

Isto não significa que não há nada a ser feito. Como pais e mães que aguardam o tão esperado bebê, algumas pessoas, felizmente, inclinam-se por realizar preparativos para que este nascimento possa ocorrer da melhor forma possível. Alguns apelam para desejos mágicos endereçados a entidades alheias, enquanto outros enxergam em si as potencialidades de construção e re-construção de um novo momento.

Particularmente eu prefiro a segunda opção, por meio do seguinte argumento: localizar em si mesmo as potencialidades de construção e re-construção é uma forma de subverter a idéia de desejar o melhor para 2012: é desejar o melhor de si para 2012, para que você seja melhor para o ano que está vindo e não o contrário. Nesta subversão as possibilidades de conquistas são mais consistentes.

Mesmo assim, nada é garantido, e isso é o mais fascinante em minha opinião, pois com base no não garantido é que oferecemos um espaço para o desenvolvimento do ser humano, e de um novo ano, igualmente humano.

O Espaço Potencial de despede de 2011 por aqui, desejando a todos um feliz natal e um ano novo repleto de incertezas!


Dedico também este texto ao meu querido avô Eliseu Fedri (1914-2011), que me ensinou que o homem é o senhor de sua própria sorte.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O psicanalista e a prostituta: um encontro de sujeitos

Aquela noite seria diferente.

Já acostumado a licenciar o espaço ao outro, permitindo com que este repousasse sobre seu divã e devaneasse, o psicanalista licenciou-se.

Cansado de favorecer relacionamentos mais humanos e democráticos, de facilitar a integração dos conflitos sob o domínio do self, ou dizendo de outra maneira, de favorecer a desalienação do sujeito junto ao seu lugar ocupado na sociedade e na singularidade, o psicanalista resolveu entregar-se às tentações das relações humano-consumistas.

Num salão escuro, sentado sob uma chaise forrada de um veludo vermelho incontido em chão e paredes, o psicanalista rebelou-se por acreditar que havia chegado a sua vez de sujeitar.

A prostituta, por sua vez, sentada no banco do bar espelhado, observava o psicanalista, cruzando suas pernas devidamente vestidas com meias longas de bordas emborrachadas, olhando reto por meios curvilíneos.

Ao se aproximar, oferece uma bebida e, passando suavemente suas mãos sob o peito do psicanalista, pergunta sobre o seu desejo.

“Quero alguém que me obedeça” disse ele.

Ela sorri, percebendo ali que a intervenção teve resultado. Agrada, acaricia e continua seu atendimento. O psicanalista não se contém: questiona sobre ela, sua origem, o que gosta, quem ela é? Começou, ali mesmo, a desnudá-la.

A prostituta envergonhou-se. Disse que gostava daquele trabalho, mas o fazia sobretudo para ajudar a alimentar os dois filhos que havia deixado aos cuidados de sua mãe numa cidade bem longe dali.

Surpreso, o psicanalista percebeu que cometeu um grave erro: ao desvestir a prostituta, vestiu sua escuta, abrindo caminho para uma trágica constatação: a prostituta havia se transformado em mulher.

Ele decidiu encerrar o encontro. Despediu-se e caminhou para casa, convencido de que psicanalistas são péssimos clientes.

Aquela noite seria diferente.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Convite

Você também está convidado para participar: sugira um tema ou um assunto por e-mail, por Facebook ou por meio do espaço destinado aos comentários e faça do Espaço Potencial o seu espaço.



domingo, 6 de novembro de 2011

O anoitecer no mundo cor de rosa

A vida parecia caminhar contínua e sem excepcionais sobressaltos. A despeito de tantos acontecimentos estarrecedores à sua volta, você e tudo o mais que lhe pertence pareciam conservados (as) de forma a manter inabaláveis suas opiniões e posicionamentos frente aquele mundo que você conhecida.

Havia uma correspondência sensível entre os personagens deste universo, fato o qual sustentava a crença de que todas estas pessoas aparentemente compartilhavam de seus ideais e deles se referiam com insossa anuência.

As outras pessoas, quando percebidas, o eram não tão diferentes de você, assim como o rumo do dia, que corria convenientemente ao compasso de seu próprio relógio, talvez o único, por assim dizer. Não havia lugar para o estranho, tudo era familiar.

Toda esta atmosfera compreendia a idéia de uma coletividade, absoluta e livre de qualquer parcialidade. O amor era incondicional, de esperanças simétricas, regendo um mundo único, puro, de uma só cor, cor de rosa.

Mas como um trauma, surpreendente e desmedido, todo este mundo rosa turvou diante de um acontecimento que insistiu em dar lugar ao estranho, apresentando a finitude dos amores e as dimensões reais dos conflitos, que agora parecem mover o novo cotidiano, apresentando depressões, desconfianças e desesperanças.

Como conseqüência, surge a melancolia (o que inclui a auto-depreciação), trazendo questões sobre sua dificuldade de enxergar, sua inocência e sua impotência diante de um mundo que mudou e que agora parece independer.

Existe uma possibilidade de sentir-se sozinho (a), mas este sentimento logo se dissipa diante da constatação que outras pessoas também já viveram naquele mesmo mundo, e hoje choram por não mais sentir sua infantil e maternalidade.

“Tome cuidado! Não se entregue demais! Ele (a) não presta, não vale a pena. Aquilo não merecia você. Da próxima vez fique esperto (a), não espere dos outros o que você faz por eles, este lugar não presta”.

Alguns enrijecem, descobrem que o mundo não é rosa e tentam pintá-lo de outra maneira (menos de rosa). Outros viajam, para o fundo ou para longe, para nunca mais voltar.

Pode haver uma leve desconfiança que o mundo cor de rosa na verdade era um ranço do mundo infantil do qual todos nós somos oriundos. Todos nós choramos, cada um a sua maneira, nesta despedida, constatando a partir de então que o mundo parece ter sido sempre diferente.

O que era rosa não era o mundo todo, mas uma postura frente a ele, postura a qual, invariavelmente sofre alterações diante de uma desilusão: numa espécie de atentado ao nosso narcisismo, o mundo colorido é sempre descoberto com pesar.

Pesar que pode se tornar crônico para quem insiste em não viver a vida a cores, incluindo, sobretudo, aquela tal cor que tanto faz lembrar do lugar onde tudo começou.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O mundo cor de rosa

“Como eu fui inocente! Não achava que as pessoas poderiam fazer o mal. Sempre tentei fazer o melhor de mim e nunca tive intenções ruins para com meus amigos e minha família. Mas parece que existem pessoas que são capazes de fazer coisas que jamais pensei. Parece que eu não enxergava, como se tivesse vivido no mundo cor de rosa”.

Onde fica o mundo cor de rosa? Você vive nele ou já partiu?

Em breve, no Espaço Potencial.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Violência e Desrespeito – Verso e Reverso

Trabalho no atendimento às vítimas de violência há oito anos. Além de escrever sobre o tema, minha atuação privilegia o encontro com a vítima e o oferecimento de um ambiente que favoreça a sua escuta e o seu acolhimento. Além desta atividade, também tenho a oportunidade de visitar escolas da rede pública de ensino para falar sobre violência para o público adolescente.

Nestas visitas, me proponho a provocar os alunos questionando-os o que eles entendem por violência. A resposta é quase instantânea: violência é bater em alguém, machucar alguém e fazer algum mal a alguém. Ou seja, aparentemente o conceito de violência é aplicado à vida particular, às relações particulares daquele adolescente com outras pessoas.

Numa conversa com minha amiga (que sugeriu esta postagem), foi indicado que eu escrevesse sobre o desrespeito às vagas de estacionamento para pessoas com deficiência. Questionei se ela entendia isso como uma violência e ela me disse: “acho desrespeito”.

Mas então, o que é violência e o que é desrespeito? São as mesmas coisas? Por que alguns acontecimentos chamamos de violência e outros chamamos de desrespeito?

Desrespeito significa não acatar as regras e as normas, não obedecer à ordem, desconsiderar uma lei e não tem como conseqüência direta desconsiderar uma pessoa. Já o conceito de violência parece ser aplicado de forma diferente.

Costumo dizer que violência é um conceito vivo. Se Foucault dizia que a palavra é a morte da coisa, eu diria que violência é a própria coisa viva. Não é tarefa fácil descrever seu significado. Podemos concordar com os alunos que dizem que violência é agredir alguém, mas ela vai muito além: violência é miséria, corrupção, má administração pública.

Violência é a desconsideração do outro de forma direta, através de agressão física, psicológica, sexual e tantas outras faces que ela é capaz de apresentar para violar o direito e a integridade de pessoas e grupos. As vítimas de violência nunca se afirmam como desrespeitadas, elas se afirmam como violentadas mesmo.

Parece então que nos referimos à violência quando algo de danoso é aplicado a uma pessoa e desrespeito quando algo de danoso é aplicado a uma lei.

Mas, voltando ao exemplo da minha amiga: desrespeitar uma vaga exclusiva para idosos ou pessoas com deficiência é uma violência ou um desrespeito? O que está se desconsiderando? Ambos!?

Temos dificuldade em entender a violência como fenômeno social de conseqüências também sociais, e não apenas individual e particular. Talvez esta dificuldade nos esmoreça na construção de uma sociedade menos violenta.

Quanto a questão, penso que o importante aqui não é fechá-la, mas mantê-la no ar, online, tão viva quanto a violência que acreditamos estar tão distante de nós.

Por sugestão de Fernanda Rodrigues, desde já meus agradecimentos.

domingo, 9 de outubro de 2011

Um livro Interessante (continuação)

Para escrever neste Espaço Potencial, faço uso de vários objetos objetivos e subjetivos que estão ao meu alcance, e posso dizer que um dos mais importantes é um simpático dicionário, que muito me auxilia na transmissão daquilo que quero expressar.

A postagem de hoje chama-se Um Livro Interessante, e a palavra interessante me interessa, chama a atenção e cativa. Este é seu significado, sendo seu contrário, somado a palavra desapaixonado, aplicados a palavra desinteressante.

É difícil saber de onde vem a idéia de que o despido é mais interessante do que o vestido (as associações com relações eróticas são inevitáveis e, portanto convenientes aqui), pois parece que é exatamente isso que podemos observar no comportamento de algumas pessoas, sobretudo aquelas que defendem que suas vidas devam ser livros abertos.

Por quê? Estaríamos misturando relações amorosas e afetivas com relações de consumo?

Prontos e abertamente pretenciosos, estes livros podem ser um tanto desinteressantes, afinal, podem desconsiderar o desejo do outro de abri-lo e descobrir, de sua maneira, a beleza que se encontra em suas palavras e entre suas linhas.

Como livros que dispensam leitores.

sábado, 1 de outubro de 2011

Você costuma fazer de sua vida um livro aberto? Costuma folear todas as páginas de sua vida para todas as pessoas que você conhece ou quer conhecer? Então quero que saiba que livros abertos podem ser um tanto...(continua)


domingo, 25 de setembro de 2011

Na observação de bebês, é possível verificar o quanto eles demonstram surpresa em manusear as coisas mais simples. Caixa de remédio, rolo de papel toalha, embalagens de bolachas são objetos toscos a nossos olhos, mas um mundo novo aos olhos de quem acabou de chegar.

É isso o que a descoberta de um novo objeto nos oferece, um mundo novo. Independentemente da idade, mesmo não sendo mais bebês, certos objetos nos dão o prazer de sentir que existe muito a descobrir, que acabamos de chegar, e que somos muito bem vindos!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Morar num outro tempo

Havia um homem que dizia ter grande paixão por casas de estilo antigo, daquelas com muros baixos, cercado tímido e porta incontestavelmente convidativa.

Este homem sonhava em morar numa casa daquelas. Por ter o hábito de caminhar por longos períodos do dia a pé, tinha a possibilidade de perceber a cidade de maneira um tanto envolvente, podendo sentir desde a presença quente do sol em sua testa à irregularidade do asfalto sob o fino solado de seus sapatos.

Era caminhando que tinha chance de encontrar estes antigos casebres, e assim, se encantava com a aparência desavergonhada dos tijolos já rachados ladeando o pontiagudo e desordenado jardim de rosas, geralmente se localizando bem em frente à grande janela principal.

Num dia, este homem encontrou mais uma destas casas, e resolveu pausar seus tão apressados e sensíveis passos. Olhou para ela com muita ternura e desejo, deixando que seu modesto sonho lhe viesse em mente.

Ao acordar, impulsionado pela urgência apressada da realidade em que vivia, e ainda um tanto entorpecido, virou a cabeça para o lado e fitou de cima a baixo um longilíneo prédio residencial que, deve-se dizer de tão enorme, parecia confundi-lo quanto qual era o verdadeiro local de sua base.

Constatou que o prédio estava isolado, fechado, circundado por grades de ferro acompanhadas de cercas eletrificadas, com três portas de acesso de diferentes materiais e três homens alinhados militarmente, aparentando avistar uma ameaça que não aparecia, pelo menos naquele momento.

Sem pestanejar, o homem voltou novamente seu olhar para a casa, e, desta vez adotando seu indomável olhar analítico-comparativo, percebeu as diferentes arquiteturas, tomando o cuidado de deixar de lado a velha e conhecida dicotomia brasileira do pobre e do rico. Afinal, aquilo não tinha a ver unicamente com dinheiro. Não para ele.

Avaliou que o prédio era novo, pois fora erigido sob a marca do medo e da ameaça resultante da realidade violenta que vivia e que teimava em anular o outro, seja pelo isolamento, seja pela demonstração de grandeza como reação à possibilidade de aniquilamento.

Ao seu lado, estava a casa, arquitetada com a delicadeza de alguém que tinha o vizinho como parceiro, que somava e compartilhava. Aquele do tempo romântico onde o outro não era ameaçador, o outro era o paraíso.

O homem se surpreendeu, descobriu que seu sonho não era nem um pouco modesto.

Retomou seus passos, não desejando mais especificamente morar numa casinha.

Desejava agora morar num outro tempo, onde quer que este tempo possa residir.

domingo, 4 de setembro de 2011

Não faz sentido falar em amor com limite.
Nem falar em amor incondicional.
Se me perguntassem o que é amor,
Eu diria que amor É limite.

domingo, 21 de agosto de 2011

O tecer e romper dos vínculos: o preço de um compromisso

Tenho certeza (e olha que certeza eu tenho poucas!) que você conhece alguém que tem medo de se relacionar. Não se relacionar no sentido de conhecer pessoas e estabelecer um vínculo oportuno e temporário, mas se relacionar compreendendo tudo aquilo que um relacionamento comporta: amor, ódio, desconfianças, brigas, traições, tempos, medos e toda uma sorte de ambivalências.

Logo de início supomos que tais pessoas podem não ter experimentado relações de apego muito agradáveis. Por outro lado, podemos supor exatamente o contrário: o apego era agradável até demais, sendo a ansiedade de revivê-lo um grande problema a ser enfrentado.

Independentemente disso, existem aquelas pessoas que optam por evitar se envolver em novos relacionamentos, acreditando ser esta uma maneira melhor e mais segura de se viver, afinal de contas, não haverá relacionamento para sustentar e desvelar.

Este sustentar e desvelar se exemplifica como um processo de duas pontas, que parte do tecer dos vínculos até o romper dos mesmos. Estamos falando de um processo de conquista e perda, um processo de luta e de luto, o qual todo ser humano (e demais seres vivos) vivenciará ao longo de sua vida.

Luto – esta palavra, que a princípio podemos pensar que se aplica apenas a situações que envolvem morte, é parte integrante de todo relacionamento.

Desta forma, se localizarmos o luto como processo inerente a todo relacionamento, de pronto pensamos que estas pessoas de que estou falando na verdade não temem o relacionamento, mas o luto que cedo ou tarde advirá dele.

É inevitável não lembrar da famigerada frase do livro do Pequeno Príncipe, na qual afirma que “você é responsável por tudo aquilo que cativas”. Já escutei esta frase de pessoas felizes e romanticamente encantadas, que certamente ignoravam seu aspecto áspero e sóbrio: o preço de um compromisso.

Pois aquele que não quer mais se relacionar sabe que quando o amor é a sua conquista, o luto será o seu preço.

E quem estará disposto a pagar por isso, mais uma vez?

domingo, 7 de agosto de 2011

A Familia Selada

A família é a base da sociedade? O psicanalista D. W. Winnicott escreveu um livro cujo título condensa o seu conteúdo de tal maneira que quase dispensa sua leitura: “Tudo começa em casa”.

De uns tempos para cá é fácil encontrar estudos que descrevem a explosão da organização familiar chamada nuclear burguesa, ou seja: pai, mãe e filho (a). Na atualidade, novas formas de organização familiar são estabelecidas, incorporando diferentes valores: a alteridade, a sexualidade, a antropoformização dos animais domésticos (com especial atenção aos cachorros), entre outros.

A crescente descentralização da religião nas organizações sociais pode ser visto como um dos pontos que favoreceram a incorporação destes novos valores, mais criativos e menos normativos, ao meu ver.

Tais valores aparentam agora entrar em confronto com os valores da família nuclear. Percebe-se isso verificando os modismos dos selos da “família feliz” nos carros que vemos diariamente nas ruas.

É inevitável refletir sobre os modismos, até porque eles não se estabelecem sem publicação e assim, por serem socializados, acabam por nos provocar.

Mas qual o sentido de publicar, através de um selo (identidade) colado num carro (patrimônio particular de visibilidade pública), os integrantes de uma família?

Adoto a hipótese que, em tempos de abalos na estruturação familiar burguesa que já conhecemos, somado a emergência de novos grupos familiares e à reivindicação de direitos (e deveres) de grupos chamados minoritários, a colagem de um selo que represente a família “tradicional” é uma tentativa de mostrar para todos que apesar de tudo, a família burguesa ainda existe e tem o seu valor.

Parece um protesto silencioso e ao mesmo tempo gritante, padrão de funcionamento comum de uma família, que tem seus pactos de silenciamento e publicização, sobretudo quando ameaçadas.

É importante salientar que muitas vezes algumas doses de realidade são necessárias para que as coisas não se tornem patológicas, e penso que esta ameaça é fruto de uma fantasia excludente, que considera o OU desconsiderando o E, ou seja, desconsiderando a co-existência das diferenças e semelhanças.

Resta refletir se esta desconsideração também começa em casa.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Preconceitos estigmatizam

Preconceitos estigmatizam,
Produzem marcas da degenerescência.
Torna uma pessoa desacreditada, quando seu estigma está à luz de todos os olhares.
Torna uma pessoa desacreditável, quando seu estigma ainda pode ser velado.

Invariavelmente, os preconceitos (ou estigmas) colaboram para a restrição das pessoas a pequenos fragmentos ligados ao seu comportamento socialmente reprovado. Ficam de lado sua história, seus papéis sociais, potencialidades, desejos e anseios.

Aparentemente podem servir como facilitador, ajudando-nos a elaborar aquilo que não conseguimos entender. Posteriormente verifica-se o equivoco, pois o que se entende é na verdade uma amostra estereotipada de algo que diz muito mais sobre si mesmo do que sobre aquele que se estigmatiza.

A suspensão dos rótulos pode ser de grande serventia, resultando na percepção que no final das contas, ninguém nos é tão estranho assim.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O Sexo que Cala

Em relacionamentos alienados, o sexo parece servir mais ao isolamento do contato com o outro do que o contrário, sua razão de ser, ou seja, a entrega mútua com fins de prazer, conhecimento e re-conhecimento. Faz-se sexo para não saber do outro, quem ele é e o que ele pode vir a ser.

O sujeito que emudece quando o corpo fala, através do sexo que cala.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O Fundo das Palavras

Uma amiga minha me disse algo muito interessante: as palavras tem fundo. Pelo menos devem ter. É como se fosse um cartão de crédito: você recebe uma quantia de crédito do banco porque ele confia nas suas condições de pagar aquela quantia creditada. Se você não consegue pagar, geram-se multas por atraso, dividas rotativas e muita dor de cabeça.

Outra comparação interessante pode ser feita em relação a um cheque bancário: você só entrega se pode arcar com seu custo. Se não pode arcar, é melhor nem usar, porque ele vai voltar, trazendo consigo todos aqueles encargos financeiros e psicológicos descritos acima.

As palavras são assim. Antes de discursá-las, é necessário um mínimo de cuidado, sobretudo quando se sabe o poder que elas detêm. Caso contrário geram-se dívidas, de confiança, de integridade e de afeto.

As palavras voam, dizia Cecília Meireles. Alguns cheques também, diria eu!

Mas depois elas caem, em algum lugar, provavelmente no negativo.

domingo, 19 de junho de 2011

Sim, se você leitor se acha estranho, esquisito, maluco e incompreensível, saiba que você está certo! Porque somos todos assim conforme a Psicanálise: somos todos incoerentes.

domingo, 12 de junho de 2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Iluminismo e análise

Na escola eu já havia estudado sobre um movimento filosófico chamado Iluminismo. De uns tempos para cá, eu já nem me lembrava o que significava isso, até que aos poucos e através de minhas leituras, observei que o Iluminismo era comumente citado em textos psicológicos e psicanalíticos. Descobri até que Freud era considerado um iluminista.

Resolvi então comprar um daqueles livrinhos que se propõe a apresentar assuntos e conceitos dos mais diversos: O que é Iluminismo? Seria uma filosofia de vida? Uma postura? Um método?

Paralelamente, estive pensando que nós, psicólogos ou não, parecemos dotados de uma natureza analítica intensa e, por que não dizer, implacável, que busca uma razão para tudo.

Estes duas inquietações: Iluminismo e análise, convergiram facilmente depois da leitura daquele livrinho. Descobri que o Iluminismo foi um movimento filosófico que responsabilizava o homem por sua razão e possibilidade de progresso ao fazer uso dela, em detrimento a teocracia que regia a época.

Descobri também, nesta mesma idéia iluminista, que com a descoberta da lei da gravidade, Isaac Newton inaugurou um momento novo na história influenciando estudiosos das mais diversas áreas do conhecimento através da noção que tudo neste mundo tem uma lei de funcionamento, inclusive o homem.

Neste ponto identifiquei Freud, como o Isaac Newton na Psicanálise. Entendi que ele era um iluminista, de fato, por buscar e encontrar razão na loucura e em outras condições humanas.

Conclui parcialmente (e sempre parcialmente) que somos muitas vezes iluministas do cotidiano, tentando iluminar aquilo que sofremos, aquilo que ouvimos, aquilo que queremos, mesmo quando as dificuldades, traumas, violências e alienações teimam em nos escurecer.

Conclui ainda que para iluminar, temos que ficar atentos às várias intensidades de luz a serem utilizadas, das mais variadas cores disponíveis, nos vários lugares possíveis.

Mas o mais importante, conclui que às vezes, por receio do que a luz pode nos mostrar, preferimos (e aqui também incluo os psicólogos) viver no escuro da fantasia, sem ousar riscar uma fagulha sequer de realidade.

domingo, 22 de maio de 2011

Só Podia Ser Você Mesmo!

Quando penso nesta frase, logo me vem à cabeça um enunciado de advertência aproximada à reprovação, do tipo: olha só o que você fez! Quantas vezes nossos pais ou amigos já falaram esta frase para demarcar algo que verificaram como sendo único?

Na verdade, único não é a palavra mais apropriada aqui. O adjetivo ainda melhor é singular. Então, quando eu troco a palavra único pela palavra singular, eu estou incluindo propositalmente a pessoa e sua criatividade.

Penso que a partir daí esta afirmação perde seu peso de reprovação, ou bronca, e ganha um sentido de enunciar que a presença do autor da arte está lá, e que de fato, só ele poderia fazer aquela arte, porque a arte é dele e de mais ninguém. A arte é ele!

Experimentemos então concordar com esta frase:

Sim, só podia ser eu mesmo! Este sou eu.

P.s.: dedico este texto a Paula Martins de Freitas, querida amiga desencontrada, que sem querer, ajudou-me a me encontrar, inusitadamente.

sábado, 7 de maio de 2011

Não dizer o que se pensa

Meu professor de Psicopatologia disse uma vez: quem diz o que pensa é criança!

Nunca me esqueci desta fala e por vezes me lembro dela, sobretudo nos momentos em que confirmo algumas de minhas suspeitas: existe uma necessidade de se dizer tudo aquilo que vem em mente, sem rodeios, sem pestanejar e sem perder tempo.

Não sei explicar ao certo, mas parece uma busca de uma espécie de verdade absoluta, ou ainda, parece uma busca de algo realmente verdadeiro, algo vivo, que se sobressai.

Mas por que temos que falar tudo o que pensamos? E quem disse que aquilo que pensamos é verdade, de verdade? Afinal, que verdade é essa?

Concordo com meu querido e saudoso mestre, e acrescendo a seguinte idéia: quando demandamos obstinadamente ouvir e dizer o que pensamos, corremos o risco de nos alimentarmos de coisas cruas, sem sentido. E isso é bem diferente da mentira, que não tem nada de cru.

Ou seja, não se conquistam verdades nem mentiras.

Depois de crescidos, temos que nos contentar com os critérios das relações sociais. Nem sempre podemos dizer o que pensamos, mas podemos dizemos aquilo que é possível dizer, e isso não deixa de ser inerente do próprio pensar.

sábado, 16 de abril de 2011

Todas as idades

Alguns pais gostam de falar com muito orgulho que o filho, apesar de pueril, possui uma importante capacidade de compreensão e desenvoltura. Dizem eles que o filho às vezes nem parece que é criança. Porém o contrário também acontece: alguns pais têm filhos “fisicamente” adultos, mas estes se comportam de acordo com a limitação de seus irrisórios recursos internos.

Por vezes, encontramos pessoas que nos dizem que parecemos mais velhos ou mais novos do que a nossa idade cronológica poderia presumir. Reparam na quantidade de cabelos brancos, algumas rugas próximas aos olhos e outros sinais estritamente físicos.

Mas a condição física significa uma pequena amostra de idade, ao compararmos com a postura que cada um tem frente a sua vida e suas coisas. O humor, por exemplo, transmite sensações bastante joviais, enquanto uma gélida seriedade pode transmitir algo realmente oposto. E tudo isso pode fazer parte de uma mesma pessoa.

Quando não excludentes e enxergadas na totalidade do humano, a juventude e a velhice ganham outro sentido, como se ambas coexistissem em uma vida que não caminha em via de mão única para um lugar determinado e retilíneo. Mas sim como um percurso de pelo menos de dois caminhos, indo e vindo, e indo e vindo denovo... (Haha! Lembrei do trajeto de um trem. Quanto transtorno ele causa quando não sai do lugar!)

Enfim, talvez o bom mesmo é poder ter todas as idades. Por exemplo, se tenho 31 anos, posso gozar da prerrogativa de ter ás vezes 5 anos (quando estou me sentindo desamparado), ás vezes 15 anos (quando ouso agir de forma inconseqüente) , e as vezes 31 anos (quando lembro das contas que tenho que pagar).

Já imaginou perguntar a alguém: quantos anos você tem? E quantos anos você pode ter?

Você pode ter além ou aquém da idade que tem? Então acho que as coisas estão andando bem.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Despedida

Ás vezes as despedidas se apresentam como um disparate à nossa capacidade de acreditar que os outros são nossos por direito. Quando alguém se despede, direta ou indiretamente demonstra que por mais envolvidos que possamos estar, existe um limite marcante entre aquilo que somos e aquilo que o outro é, para si e também para nós.

Talvez tenha a ver com um pesar de expropriação, mas de algo que nunca foi nosso de verdade.

Algo que talvez nunca o será.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Transformar em brinquedo aquilo que antes era algo impensável de se brincar.

Isso é sinônimo de superação?

segunda-feira, 28 de março de 2011

Aos amigos, a Amizade

Eis aqui um conceito que quero problematizar, e vou tentar fazer isso da maneira mais simples possível, uma vez que tenho alto grau de comprometimento com a clareza de transmitir minhas idéias neste Espaço Potencial.

Andei pensando sobre a noção de amizade. É uma noção que envolve amor diferente, envolvimento diferente, intimidade diferente. É um relacionamento diferente daquele que temos quando nos apaixonamos por alguém.

Experimente se perguntar o que significa amizade para você? Companheirismo? Afinidade? Cumplicidade? Se você respondeu sim a estas características, eu concordo com você meu amigo.

Existem aqueles que têm outras idéias acerca do que é amizade: é um envolvimento que pode vir a ser sexual, um relacionamento potencialmente apaixonado, do ponto de vista erótico. Ou mesmo uma relação que só é de amizade porque outros fins não foram possíveis.

É neste ponto que eu gostaria de chegar, porque o que eu pensei sobre amizade e o que eu ouço falar sobre ela geralmente se divide em duas linhas de pensamentos: amizade como produto de uma transformação da libido, portanto uma espécie de amor inibido, e amizade como produto da própria libido, uma espécie de amor concretizado em si.

Se perguntássemos a Freud (idealizador do método psicanalítico) ele concordaria com a primeira noção descrita acima: as amizades significam aquilo que restou de um investimento sexual negado: não tenho como possuir sexualmente aquele objeto, então possuirei tenramente aquele objeto. Assim mantenho um amor, menor, mitigado, mas existente.

Tenho certa incapacidade de conceber a noção de amizade desta maneira, sobretudo porque me dá a impressão de que, se estiver correta, significaria então que todos os amigos que temos a nossa volta seriam inconscientemente frustrados sexualmente conosco.

Chega a ser engraçado! Não entendo a amizade com uma finalidade insatisfeita, mas algo que se satisfaz por si mesma, sem excluir uma atração sensual, que também faz parte de relacionamentos amistosos e não necessariamente sexuais.

Envolve companheirismo, afinidade, cumplicidade, mas tem o diferencial da liberdade, que possibilita sensações de prazer intensas e não diminuídas.

Isso é amizade para mim, o resto é, definitivamente, outra coisa.

sábado, 26 de março de 2011

Criar e recriar é divino. É brincar de ser Deus sem deixar de ser homem. É fazer o todo sem deixar de ser parte.

Duvido daquele que, ao conceber-se parte do e no mundo, não teima em brincar de ser Deus (de suas próprias coisas).

sábado, 12 de março de 2011

Sobre a capacidade de estar só

Sinto-me inclinado, não por acaso, a escrever sobre um tema contraditório: a capacidade de estar só. Quando converso com amigos não raro ouço frases do tipo: “não gosto de almoçar sozinho, não gosto de ficar sozinho, solteiro sim, sozinho nunca, é impossível ser feliz sozinho".

São posicionamentos que compreendem a solidão como conseqüência de um fracasso pessoal bastante amargo. Estar só significa estar perdido, negado, condenado ao vazio, não apenas em silêncio, silenciado.

Mas em Psicanálise a condição de estar só aponta para algo antagônico daquele descrito acima: estar só significa evolução no amadurecimento pessoal, uma condição especial de consistência do self (sí mesmo) e conseqüentemente resistência ao desfalecimento. Algumas pessoas, no entanto, não descrevem a possibilidade de estar só associada ao fracasso e ao medo.

Então, como entender isso? De início gostaria de dizer que meu intuito não é instruir alguém a almoçar sozinho ou ser feliz sem ninguém por perto. Deixo isso para a cultura do individualismo que já vivenciamos e que dela não compartilho.

Mas quero dizer que entendo isso da seguinte maneira: para estar sozinho é necessário alguém por perto. Um paradoxo curioso! Conseguimos ficar sozinhos quando temos a capacidade de perceber que existem recursos que orbitam o lugar que ocupamos e que deles podemos fazer uso quando necessário.

Sem esta capacidade, ou seja, sem alguém por perto, não podemos ficar sozinhos e assim precisamos estar ligados a alguém a todo o momento, uma vez que a possibilidade de se perder no vazio é iminente.

Então não sei responder aqui se é possível ou não ser feliz sozinho, almoçar sozinho, viajar sozinho...mas me limito a afirmar que é possível ESTAR sozinho.

Como estou agora, com você.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Pró-(re)gresso

Para independer, é imprescindível depender.
Para escrever, é imprescindível ler.
Para regredir, é imprescindível viver.
Para renovar, é imprescindivel morrer...
O Espaço Potencial está de volta.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Conclusão

...e ao perceber que o piano, mesmo tocado com afeição e delicadeza, não poderia fazer parte sí, nem tampouco ser encontrado em seu interior, ele resolveu então fazer música com suas próprias palavras.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011