segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sofro, logo existo

Na clínica psicológica contemporânea estão presentes tipos específicos de demandas. Alguns estudiosos afirmam que no passado as pessoas procuravam os psicoterapeutas por questões de maior contorno, e que de uma forma ou de outra, estavam relativamente bem elaboradas.

É o caso de problemas conjugais, onde um indivíduo estava maduro o suficiente para poder relatar seus problemas com o parceiro ou a parceira. Também é o caso de pessoas envolvidas em questões histéricas, sentindo-se incompreendidas com o mundo ao redor e freqüentemente atribuindo a este mundo as responsabilidades de suas frustrações.

Há também aqueles que constatam as bizarrices da vida sexual (que surpresa!) e juntamente com o psicoterapeuta, buscavam auxílio para poder minimamente integrar estes conteúdos, se identificar com eles e a ponto de elaborarem estas estranhezas.

Ocorre que a clínica psicológica está recebendo hoje em dia demandas bem diferentes, além destas já mencionadas. Tendo como pano de fundo a sociedade do espetáculo, protagonizada pela presença central da televisão no cotidiano social, saliento que somos convidados à conhecer e viver o mundo imaginativo da cena, do drama, da novela cotidiana.

Alguns profissionais da comunicação já se questionaram: “o que é real na televisão?”. Personagens estereotipados, cenários, tendências de moda, padronização do comportamento e da estética, edição de som e imagem, Photoshop entre outros podem levar qualquer pessoa a se sentir destoada de um contexto excludente, e assim buscar incessantemente um lugar, um tanto viciado.

Hoje, a perfumaria é 24 horas! Que bom, pois você poderia ficar sem seu desodorante ou delineador ás quatro horas da manhã! Hoje também, comprar uma casa pode ser sinônimo de comprar praticamente um bairro inteiro, no qual certamente reivindicará suas leis paralelas de funcionamento em detrimento ao compromisso maior, que é fazer parte de uma sociedade que também inclui bairros bem diferentes. Hoje, não é necessário buscar o contato com pessoas para fazer uma moção, seja ela de repúdio ou aprovação. Recorre-se ao Twitter, ao Blog, ou comprar uma camiseta que diga tudo o que não é possível dizer.

Hoje, a revolução é comprada.

O que é real então? O que realmente faz sentido?

Descartes, há séculos atrás, acordou num dia e resolveu colocar o mundo inteiro ao seus pés, o desafiando através da dúvida. O que realmente existe neste mundo? Eu? Ah sim, eu existo, porque estou pensando, e disso não posso duvidar. Então: “penso, logo existo”.

Certamente que não vivemos mais nos tempos de Decartes, mas parece que a demanda que chega nos consultórios de psicologia parece ser bem cartesiana: o sofrimento relacionado a questão da não existência, e o risco da despersonalização.

Existem sofrimentos que são bem primitivos, quando relacionados aqueles relatados no início desta postagem, e se referem ao sentimento de que uma vida inteira pode ter sido construída sobre o nada, de que o corpo que se possui pode não passar de um fantoche nas mãos alheias, de que as opiniões e os posicionamentos sociais são produtos de uma inércia que vem do nada e vai a lugar algum.

Nestas angústias, o que importa não é exatamente o desejo do paciente. O terreno aqui é anterior: o que importa é a necessidade: de ser, de viver e de sentir.

Ou de sofrer mesmo, mas de verdade.

domingo, 11 de abril de 2010

O tempo que temos e o tempo que queremos

Atualmente, não olhamos mais para o relógio para saber que horas são. Olhamos nossos relógios para saber quanto falta: para chegar a hora de trabalhar, namorar, fazer o almoço, estudar etc.

Estamos brincando de pega-pega com o tempo, que parece fazer a questão de fugir de nosso controle, ao mesmo tempo que mostra o quão limitados somos frente as castrações da vida real.

Ás vezes acho que estamos vivendo num tempo que não passa, ou que passa tão rápido que não foi possível ver que ele passou. As vezes não vemos o tempo passar.

Assim desdobramos nossas vidas, muitas vezes repetindo cenas e situações que já foram exaustivamente concretizadas por algum antepassado, mas que, por não pararmos para pensar, é atuada como se fosse a primeira vez.

É assim, na cultura do imediatismo, não se pode parar. Se parar, corre-se o risco de se arrepender. Se parar, corre-se o risco de voltar atrás. Se parar, corre-se o risco de pensar. E qual o problema?

Penso que nesta possibilidade de parar, para pensar e para desenvolver um sentido de vida mais ético e mais honesto com o próprio humanismo, muitas alternativas estão a disposição.

Obviamente, por questões de conveniência, situo o lugar do consultório psicológico como uma destas alternativas. Vejo que em nenhum outro lugar o valor da singularidade possa ser mais exaltado do que neste contexto. E quem pode gozar da singularidade em outros lugares sociais? Alguns, claro!

Mas as vezes, cabe ao psicólogo, juntamente com seu paciente, realizar um convite à reconstrução. A parar para pensar e para olhar, parar mesmo que com o simples objetivo de olhar em algo tão simples como um relógio...mas como se fosse a primeira vez.