quarta-feira, 31 de março de 2010

Ser psicólogo

Quando se tem uma vida marcada pela confiança que as pessoas a sua volta tem de você, quando estas pessoas confidenciam a você seus maiores segredos e estranhezas, quando você percebe que é capaz de escutar minimamente suas dificuldades e conflitos, pode haver um momento de sua vida que você acredite na Psicologia como profissão.

Pode também acontecer de você achar que suas capacidades são sobre-humanas, e que todos os problemas a sua volta estão próximos de uma grande interpretação, que dissolverá qualquer conflito e qualquer questão.

Bem, se você realmente acredita nestes superpoderes, talvez a Psicologia não seja uma saída tão interessante assim. Trocar a dúvida pela certeza não é algo próprio de um fazer psicológico.

Mas mesmo assim assumindo estas características e seguindo em frente nesta profissão, você então poderá aprender uma vasta quantidade de estudos e trabalhos que relatam sobre a personalidade do ser humano, seu comportamento, seu desenvolvimento etc. Aprenderá também sobre as possibilidades de realização de pesquisa deste ser humano, sua relação com o ambiente, suas respostas aos estímulos, sua limitação frente ao inconsciente.

Ao chegar no último ano de faculdade, você é supreendido. Tudo aquilo que você aprendeu, decorou, pesquisou e criou acaba por ser deixado de lado, em prol de uma pessoa, que sofre, que deseja, que demanda, que ás vezes nem sabe o que quer, mas quer, e até necessita de algo.

Atravessar o campo do saber para o não saber pode ser uma tarefa árdua para um estudante de Psicologia. Acredito até que aqueles que não conseguem elaborar este calculo podem falhar naquilo que é mais imprescindível do psicólogo e que tem tudo a ver com aquilo que as pessoas falavam de você antes de se aventurar nesta profissão: sua presença, seu olhar, seu cuidado e sua atenção.

Este pode ser o risco: buscar um livro nas pessoas, ou as pessoas num livro. Viver a melancolia da teoria.

Mas, quando se consegue atravessar esta tenue separação, você poderá constatar que o sofrimento humano é algo além do objeto, além do concreto e também além de você. Então você buscará livros e mais livros, supervisões, discussões, terapia e todos os equipamentos possíveis para mais uma vez, frustrado, descobrir que ainda há muito o que aprender.

Não terá receitas, não poderá garantir, não saberá o que responder quando uma pessoa se volta a você numa mesa entre amigos e faz a célebre pergunta: "você que é psicólogo! O que você acha disso?"

Mas então o que poderá fazer? É só o outro que poderá dizer?
Não. Não é bem assim.

Possivelmente as pessoas que estão procurando por você já tentaram de tudo na vida. Em tempos de promessas não cumpridas, podem ter sido traídas. Em tempos de subjetividade reprovada, podem ter sido rejeitadas. Em tempos de violência, podem ter sido desconsideradas.

Há uma história, uma experiência portada que será levada a você, mais uma vez, como nos velhos tempos. A diferença agora é que você sabe que não é nenhum exemplo de perfeição, e é por conta disso que pode acolher este outro.

Assim, talvez será possível acreditar no encontro, e levar em consideração aquilo que é falado por mais bizarro que possa parecer aos ouvidos da realidade. Afinal, sua escuta não é apenas especial e clínica, é também "mal-educada".

Além disso, poderá ser capaz de estabelecer uma relação horizontalizada e singular, a prova de quase qualquer julgamento. Psicólogo realmente experiente não critica com facilidade o trabalho de outro profissional, pois entende que a relação estabelecida entre ele e seu paciente é única e multidimensional.

Intervirá, não apenas em seu limitado espaço de consultório, mas também frente a sociedade, facilitando às pessoas seu lugar de cidadão, de sujeito de direitos, ou de situação peculiar de desenvolvimento.

E acredito que ficará feliz pelo mais discreto avanço de seu paciente.
É, na verdade os super-poderes podem parecer reais, mas na verdade não serão seus.

Mas é mesmo de super-heróis que as pessoas precisam?

Inauguração

Espaço potencial significa espaço de possibilidades. Natureza humana simboliza as caracterísicas do ser humano levando em consideração sua singularidade.

Hoje inicia-se mais um espaço para discutir sobre potencialidades da natureza humana, Psicologia e Psicanálise.

Sejam bem vindos,
Nos encontraremos novamente em breve.