terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Divã

Existe um lugar de conforto e de entrega, capaz de permitir redesenhar toda uma tragetória de experiências, desde as mais primitivas até as mais elaboradas.

Um lugar mascarado (e ao mesmo tempo de desmascaramento), privado de contatos visuais com qualquer pessoa, que convida à introspecção e ao desafio de se enxergar sem a ajuda de qualquer tipo de espelho.

Que envolve e embala o corpo de maneira singular, como um colo que só que teve seria capaz de descrever minimamente.

Alguns o fazem de cama, e lá deixam derramar à sexualidade,
Outros o fazem de berço, e lá se entregam à instintualidade.

O importante é que ele está lá, convidativo até o mais angustiante silêncio.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nada mais que o fundamental

Se sentir convidado aos rebuscados modos de se descrever e descrever o outro é um grande perigo para qualquer Psicanalista que queira falar sobre a Natureza Humana.

Não existe outra maneira de concretizar um encontro senão concebendo-o como ele se apresenta, e acompanha-lo.

Não existe outra maneira de ser, senão por inteiro.

Seriam estas uma das fundamentações da clínica? Talvez sim. Dizem que o ato de clinicar significa debruçar-se, através da escuta. Clinicar é um ato mútuo de entrega, um ato de amor mal amado, um amor contratado.

Complicado? Possivelmente, mas não demais, para não parecer desesperançoso.

Só tem que ser fundamental, e para tanto, reivindica-se a serenidade da presença.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Homens

Homens são constantes, amam com a mesma facilidade que odeiam. Se unem a alguém quando vale pena, e deixam quando ainda pode valer. São fortemente sensíveis, crescem pouco e brincam para sempre.

Mesmo assim, homens querem amadurecer e demonstrar força, têm tendência para carregar o mundo nas costas e o mantém mesmo quando não o agüentam.

Homens são resistentes, gostam de tentar esconder o impossível, choram escondido. Estão em constante guerrilha e se sentem testados por muitos momentos. Mesmo assim, homens brigam mais consigo do que com os outros.

Homens fazem por amor, e por mais um monte de coisas. Não gostam de incertezas. Demandam cuidado, mas não se atentam a seus próprios.

Quando agregados, são viris, quando sozinhos, são aquilo que bem entendem. As vezes não são fiéis, porém nunca traem sua própria natureza.

Homens se interessam por identidades secretas. Gostam de pensar que existe um super-herói dentro de si.

Gostam de protagonizar histórias e produzir suas próprias referências.

E têm medo da imprevisibilidade do mundo.

domingo, 29 de agosto de 2010

Trabalho x missão

Trabalhar com aquilo que gosta: realidade para alguns, utopia para outros.

Dizem que quando se tem prazer pelo trabalho que se realiza, as possibilidades de sucesso são ainda maiores: a paixão está marcada em cada ato, em cada minuto. Algumas pessoas dizem até que conseguem perceber a vocação e a paixão daquele que trabalha com amor.

Mas para aquele, que trabalha com tal amor, fica a questão: até onde vai o trabalho e até onde vai a missão?

domingo, 27 de junho de 2010

A cidadania do futebol

Brasil: país de desigualdades sociais gritantes. Fome e violência numa das maiores economias do mundo. População parcialmente alienada, na qual muitos sustentam a corrupção na política e a truculência da polícia.

A pena de morte não existe, oficialmente. Na cultura da população, porém, sobrevêm a idéia de que alguns são matáveis, alguns são despresíveis e alguns são desacreditáveis.

Mas na copa do mundo, pelo menos por algumas semanas, o verde e amarelo de nossa insignificante bandeira pinta um rascunho de cidadania possível: um sentimento fraternal que supõe que todos somos um só.

O Brasil então, coloca os pés no chão. Pena que para isso é imprescindível um par de chuteiras e uma bola no meio.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O encontro (opaco)

É necessário ser neutro, falar pouco. É necessário também ser pacato, não se mexer muito na poltrona. Cuidado com o olhar, deve ser sempre constante, com pouco brilho. Se for sorrir, que seja discreto, silencioso.

Ao atender, estenda a sua mão, diretamente, sem pestanejar. Ao se solidarizar, respire fundo. Ao ser elogiado, tenha em mente que isso não lhe pertence. Já ao ser criticado, imagine o mesmo, porém não volte atrás.

Se houver um encontro fora do ambiente adequado, aja com naturalidade profissional. Não informe impressões pessoais, pois serão invalidadas como elemento de intervenção.

Não deixe passar nada. Interprete sempre que possível, onde quer que esteja, levando em consideração o inconsciente, antes do sujeito.

Fique atento, pois tudo pode ser o contrário, tudo por ser uma trama inesgotável.

Procure na pessoa que você atende suas estruturas internas, intrapsíquicas, secretas, mascaradas.

Reivindique a antipatia,

Eis os norteadores da chatice da “psicologia”.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sofro, logo existo

Na clínica psicológica contemporânea estão presentes tipos específicos de demandas. Alguns estudiosos afirmam que no passado as pessoas procuravam os psicoterapeutas por questões de maior contorno, e que de uma forma ou de outra, estavam relativamente bem elaboradas.

É o caso de problemas conjugais, onde um indivíduo estava maduro o suficiente para poder relatar seus problemas com o parceiro ou a parceira. Também é o caso de pessoas envolvidas em questões histéricas, sentindo-se incompreendidas com o mundo ao redor e freqüentemente atribuindo a este mundo as responsabilidades de suas frustrações.

Há também aqueles que constatam as bizarrices da vida sexual (que surpresa!) e juntamente com o psicoterapeuta, buscavam auxílio para poder minimamente integrar estes conteúdos, se identificar com eles e a ponto de elaborarem estas estranhezas.

Ocorre que a clínica psicológica está recebendo hoje em dia demandas bem diferentes, além destas já mencionadas. Tendo como pano de fundo a sociedade do espetáculo, protagonizada pela presença central da televisão no cotidiano social, saliento que somos convidados à conhecer e viver o mundo imaginativo da cena, do drama, da novela cotidiana.

Alguns profissionais da comunicação já se questionaram: “o que é real na televisão?”. Personagens estereotipados, cenários, tendências de moda, padronização do comportamento e da estética, edição de som e imagem, Photoshop entre outros podem levar qualquer pessoa a se sentir destoada de um contexto excludente, e assim buscar incessantemente um lugar, um tanto viciado.

Hoje, a perfumaria é 24 horas! Que bom, pois você poderia ficar sem seu desodorante ou delineador ás quatro horas da manhã! Hoje também, comprar uma casa pode ser sinônimo de comprar praticamente um bairro inteiro, no qual certamente reivindicará suas leis paralelas de funcionamento em detrimento ao compromisso maior, que é fazer parte de uma sociedade que também inclui bairros bem diferentes. Hoje, não é necessário buscar o contato com pessoas para fazer uma moção, seja ela de repúdio ou aprovação. Recorre-se ao Twitter, ao Blog, ou comprar uma camiseta que diga tudo o que não é possível dizer.

Hoje, a revolução é comprada.

O que é real então? O que realmente faz sentido?

Descartes, há séculos atrás, acordou num dia e resolveu colocar o mundo inteiro ao seus pés, o desafiando através da dúvida. O que realmente existe neste mundo? Eu? Ah sim, eu existo, porque estou pensando, e disso não posso duvidar. Então: “penso, logo existo”.

Certamente que não vivemos mais nos tempos de Decartes, mas parece que a demanda que chega nos consultórios de psicologia parece ser bem cartesiana: o sofrimento relacionado a questão da não existência, e o risco da despersonalização.

Existem sofrimentos que são bem primitivos, quando relacionados aqueles relatados no início desta postagem, e se referem ao sentimento de que uma vida inteira pode ter sido construída sobre o nada, de que o corpo que se possui pode não passar de um fantoche nas mãos alheias, de que as opiniões e os posicionamentos sociais são produtos de uma inércia que vem do nada e vai a lugar algum.

Nestas angústias, o que importa não é exatamente o desejo do paciente. O terreno aqui é anterior: o que importa é a necessidade: de ser, de viver e de sentir.

Ou de sofrer mesmo, mas de verdade.

domingo, 11 de abril de 2010

O tempo que temos e o tempo que queremos

Atualmente, não olhamos mais para o relógio para saber que horas são. Olhamos nossos relógios para saber quanto falta: para chegar a hora de trabalhar, namorar, fazer o almoço, estudar etc.

Estamos brincando de pega-pega com o tempo, que parece fazer a questão de fugir de nosso controle, ao mesmo tempo que mostra o quão limitados somos frente as castrações da vida real.

Ás vezes acho que estamos vivendo num tempo que não passa, ou que passa tão rápido que não foi possível ver que ele passou. As vezes não vemos o tempo passar.

Assim desdobramos nossas vidas, muitas vezes repetindo cenas e situações que já foram exaustivamente concretizadas por algum antepassado, mas que, por não pararmos para pensar, é atuada como se fosse a primeira vez.

É assim, na cultura do imediatismo, não se pode parar. Se parar, corre-se o risco de se arrepender. Se parar, corre-se o risco de voltar atrás. Se parar, corre-se o risco de pensar. E qual o problema?

Penso que nesta possibilidade de parar, para pensar e para desenvolver um sentido de vida mais ético e mais honesto com o próprio humanismo, muitas alternativas estão a disposição.

Obviamente, por questões de conveniência, situo o lugar do consultório psicológico como uma destas alternativas. Vejo que em nenhum outro lugar o valor da singularidade possa ser mais exaltado do que neste contexto. E quem pode gozar da singularidade em outros lugares sociais? Alguns, claro!

Mas as vezes, cabe ao psicólogo, juntamente com seu paciente, realizar um convite à reconstrução. A parar para pensar e para olhar, parar mesmo que com o simples objetivo de olhar em algo tão simples como um relógio...mas como se fosse a primeira vez.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Ser psicólogo

Quando se tem uma vida marcada pela confiança que as pessoas a sua volta tem de você, quando estas pessoas confidenciam a você seus maiores segredos e estranhezas, quando você percebe que é capaz de escutar minimamente suas dificuldades e conflitos, pode haver um momento de sua vida que você acredite na Psicologia como profissão.

Pode também acontecer de você achar que suas capacidades são sobre-humanas, e que todos os problemas a sua volta estão próximos de uma grande interpretação, que dissolverá qualquer conflito e qualquer questão.

Bem, se você realmente acredita nestes superpoderes, talvez a Psicologia não seja uma saída tão interessante assim. Trocar a dúvida pela certeza não é algo próprio de um fazer psicológico.

Mas mesmo assim assumindo estas características e seguindo em frente nesta profissão, você então poderá aprender uma vasta quantidade de estudos e trabalhos que relatam sobre a personalidade do ser humano, seu comportamento, seu desenvolvimento etc. Aprenderá também sobre as possibilidades de realização de pesquisa deste ser humano, sua relação com o ambiente, suas respostas aos estímulos, sua limitação frente ao inconsciente.

Ao chegar no último ano de faculdade, você é supreendido. Tudo aquilo que você aprendeu, decorou, pesquisou e criou acaba por ser deixado de lado, em prol de uma pessoa, que sofre, que deseja, que demanda, que ás vezes nem sabe o que quer, mas quer, e até necessita de algo.

Atravessar o campo do saber para o não saber pode ser uma tarefa árdua para um estudante de Psicologia. Acredito até que aqueles que não conseguem elaborar este calculo podem falhar naquilo que é mais imprescindível do psicólogo e que tem tudo a ver com aquilo que as pessoas falavam de você antes de se aventurar nesta profissão: sua presença, seu olhar, seu cuidado e sua atenção.

Este pode ser o risco: buscar um livro nas pessoas, ou as pessoas num livro. Viver a melancolia da teoria.

Mas, quando se consegue atravessar esta tenue separação, você poderá constatar que o sofrimento humano é algo além do objeto, além do concreto e também além de você. Então você buscará livros e mais livros, supervisões, discussões, terapia e todos os equipamentos possíveis para mais uma vez, frustrado, descobrir que ainda há muito o que aprender.

Não terá receitas, não poderá garantir, não saberá o que responder quando uma pessoa se volta a você numa mesa entre amigos e faz a célebre pergunta: "você que é psicólogo! O que você acha disso?"

Mas então o que poderá fazer? É só o outro que poderá dizer?
Não. Não é bem assim.

Possivelmente as pessoas que estão procurando por você já tentaram de tudo na vida. Em tempos de promessas não cumpridas, podem ter sido traídas. Em tempos de subjetividade reprovada, podem ter sido rejeitadas. Em tempos de violência, podem ter sido desconsideradas.

Há uma história, uma experiência portada que será levada a você, mais uma vez, como nos velhos tempos. A diferença agora é que você sabe que não é nenhum exemplo de perfeição, e é por conta disso que pode acolher este outro.

Assim, talvez será possível acreditar no encontro, e levar em consideração aquilo que é falado por mais bizarro que possa parecer aos ouvidos da realidade. Afinal, sua escuta não é apenas especial e clínica, é também "mal-educada".

Além disso, poderá ser capaz de estabelecer uma relação horizontalizada e singular, a prova de quase qualquer julgamento. Psicólogo realmente experiente não critica com facilidade o trabalho de outro profissional, pois entende que a relação estabelecida entre ele e seu paciente é única e multidimensional.

Intervirá, não apenas em seu limitado espaço de consultório, mas também frente a sociedade, facilitando às pessoas seu lugar de cidadão, de sujeito de direitos, ou de situação peculiar de desenvolvimento.

E acredito que ficará feliz pelo mais discreto avanço de seu paciente.
É, na verdade os super-poderes podem parecer reais, mas na verdade não serão seus.

Mas é mesmo de super-heróis que as pessoas precisam?

Inauguração

Espaço potencial significa espaço de possibilidades. Natureza humana simboliza as caracterísicas do ser humano levando em consideração sua singularidade.

Hoje inicia-se mais um espaço para discutir sobre potencialidades da natureza humana, Psicologia e Psicanálise.

Sejam bem vindos,
Nos encontraremos novamente em breve.